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sábado, 8 de agosto de 2026

Entre lírios e delírios

Quero a alegria da juventude desenhada em cada traço dessa face poética.

 

Quero a amizade, com grande intimidade da própria felicidade.

 

Quero os mais belos poemas em minhas mãos, cantando e dançando, lavrando rimas que tocam o azul.

 

Quero as aves pousando serenas nos quintais de minha mente.

 

Quero bailar as mais clássicas valsas vienenses, nos salões mais nobres e éticos, mesmo eu usando o simples gentílico de um caa-rapo-ense.

 

Quero apalpar os meus sonhos, vê-los, cheirá-los, degustá-los, após sinestesicamente realizados, ouvidos, concretizados.

 

Quero o aconchego da minha casa, construída com os tijolos dos melhores afetos.

 

Quero a saúde nos meus dias, o sopro da vida, a força e a paz nos meus membros. Anseio pelo viver bem até mais que os 100.

 

Sorrir, amar, gozar o melhor da Terra, abraçar essa Gaia com os braços de um amante.

 

Quero sim poder existir nas páginas da imortalidade e que minha alma beba o néctar produzido nas inimagináveis mansões celestiais, donde possa contemplar as belezas infindáveis.

 

Quero o menino que vive e reina dentro de mim cantando, pulando e brincando com beleza, pureza e leveza.

 

Quero a chave das palavras, os olhos do paraíso, o beijo dos arcanjos. Serafins no entorno e tocando em mim.

 

Quero os meus pés descalços de toda maldade do mundo, ainda que palmilhando uma certa ingenuidade, caminhando nas pegadas, nos passos da poeticidade.

 

Quero compor um poema tão longo e belo, que derrame pelas bordas das capas, que não caiba nos tonéis de vinho, mas que embriague os homens e os transforme de tal forma que não se reconheçam nem nos espelhos, nem nos seus atos vis.

 

Quero seguir na estrada do sem fim, coroado duma graça e que a piedade seja como uma sequoia milenar plantada no solo do meu coração.

 

Quero carneiros solenizados, eternizados, compondo suaves cenas, pastando os ramos da tranquilidade.

 

Quero as cores dos mais ternos, delicados e tenros amores, e que eles venham a mim, batam às minhas portas em versos, melodias e doces harmonias.

 

Quero os limites desse corpo de desejos estendidos até às raias do prazer. Ser e estar com a cabeça nos céus e os pés plantados no terreno de toda fertilidade, duma imensa criatividade.

 

Quero encher o livro com tanta sabedoria, até que ele transborde de suas páginas um verdadeiro e admirável mundo novo, não o de Huxley, mas algo maravilhoso, não-ficcional, uma obra com grandes possibilidades do vir-a-ser, possibilidades do belo, do ético e do real.

 

Quero os sagrados números falando comigo e me divertindo enquanto enchem os meus bolsos das mais preciosas alegrias.

 

Quero dialogar com os sábios, saber dos anjos os propósitos deles, a fim de intentar ajudá-los, até que eu mesmo tome o rumo das estrelas nas galáxias mais distantes e mais belas.

 

Quero os melhores amigos, entranhados no peito, de um jeito que não possam sair até o apagar de nossos olhos mortais.

 

Pai, eu te peço esses presentes todos, com ousadia, com pura loucura, fantasia, nesse dia dos filhos da liberdade.

 

E quanto ao demais, eu só posso dizer que não quero mais nada. Assim, regarei minhas rosas e plantarei os meus lírios nesses vales enlouquecidos de tantas esperanças.


Ismael Machado

(Do livro "Folhas de março", 2a. Edição, Alfa Editora, 2026, página 88, no prelo).


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