Ver o pôr do sol ali em Jeri é iluminar-se de horizontes. É um festival, um arrebol de cores, entardecendo dentro de si.
Em Jericoacoara parei, sentei e contemplei, um espetáculo digno dos mais efusivos aplausos. Pergunto, qual casa teatral poderá apresentar por tanto tempo uma peça assim tão magistral e sempre diversa, sem igual?!... Belo e formoso, resplandece majestoso e refulgente do Oriente ao Ocidente. Seus raios nos alcançam com dádivas, com mãos potentes.
Majestosamente se põe o Astro Rei. E eu bem sei que a vida e os ventos, com ele, bem ao longe me levarão, mais além, ó fonte da vida terrena e dos insondáveis mistérios da morte.
Bendiga, ó minh'alma, ao seu Criador, e tudo o que há na Terra e em mim, a Ele bendiga pelas suas obras sem fim.
Com as minhas faces, com a cara assim iluminada, alaranjada, vejo o pôr mais lindo do Sol, justo enquanto ouço o canto do Siará, tupi-guarani, em Jericoacoara. Em certo sentido somos todos filhos e filhas do Sol, pois dele emanam a luz e a vida pulsante, vibrante. Ele acende sua imensa chama e incendeia as piras, os altares, os lugares, para velar por nós mortais. Nesse lugar assim lindo eu quero estar e, por anos a fio, ali ficar.
Saí da toca, junto de tantas tartarugas marinhas, somos seres navegadores de mares, das profundezas da vida. Quando ele, o Sol, se levanta, desde milênios de milênios, então, vai abençoando a Terra, os demais Planetas e todos os seres vivos ou inanimados.
Nessas linhas segue inscrita uma nota poética antiga, andina e egípcia, uma espécie de códice ou hieroglifo, que em tempos modernos destaco, aqui coloco o meu grifo.
Logo em seguida ao poente surgirá nos céus a Lua em sua fase crescente. Ela virá dar forças ao surgimento dos sonhos do povo, das gentes. Lua de Prata e jangada dourada anseiam por trilhas de Sol, por suas belezas e riquezas. Vão no compasso das tartarugas, lentamente, segundo após segundo, qual o Sol se pondo, vão todos vagarosamente, preguiçosamente, melancolicamente. Lua, Sol e jangadeiro seguem a solidão das estrelas.
Aqueles foram dias feitos só de Sol, lá para onde fui e não queria voltar, um lugar ao Leste. Pois, me parece que sempre será melhor seguir por roteiros de Sol e de mar.
Com suas cores e incontáveis pores, dia após dia, um espetáculo antimonotomia com tamanha policromia.
Sem a sua luz, sem o seu calor, a vida fenece, mas consigo ela floresce e se move, cresce. Seus mistérios são revelados aos homens em seu curso do Leste ao Oeste. Em aproximadas doze horas geométricas, sob o signo dos números, primeiro o que princípia a vertical e depois o que se dobra entre o círculo e a reta, vê-se desde o seu nascer, percorrer os caminhos dos seres vivos, e ao Oeste se deitar, assim, consigo, o dia vai se findar.
Há quantos becos na Terra, algum deles quer ser o jardim de uma vida inteira, outros inominados. Mas para o Sol não há quaisquer becos, quando ele se levanta ao Leste as rotas se tornam fecundas.




