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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

A liberdade de Gimel, algo genial - Parte I

Ao sábio Gibran Khalil Gibran

 Parte I

Se eu fosse Aladdin eu faria bem assim, três petições ao gênio da lâmpada e a quantos males nesse mundo eu poria um fim.

 

Diante do gênio, envolto em névoas e palmilhando o nada, a lâmpada mágica ainda entreaberta e eu boquiaberto, estupefacto ante o homem imenso saído de um pequeno orifício, dum recipiente usado para o combustível do fogo imanente, o que se apresentava pelo simples fato de eu haver esfregado aquela velha lamparina árabe com as minhas débeis mãos, ainda trementes e nem sei dizer quantos pensamentos na mente correntes. Lembro-me, vagamente, ter lhe perguntado o nome simplesmente, ao que me respondeu chamar-se Gimel, tal a terceira letra do alfabeto hebraico, alfabeto crente num só Deus vivente.

 

Antes d'eu balbuciar palavra, eis já estava o grande gênio, que por três pedidos me perguntava. E sem deixar-me procrastinar ele me apressava dizendo da brevidade que o tempo na ampulheta passava. Instrumento aquele trazido por ele em sua mão esquerda, onde se via em cores diversas, três contadores de grãos de areia caindo incessantes, enquanto meu pensamento era galopante. Para não lhe causar rubores de curiosidades direi das cores, sem os comentários de seus significados. Eram justamente, na tal ampulheta: o violeta, o índigo e o azul, e nessa ordem, em sincronicidade, do mais alto ao mais baixo desciam em três porções os grãos contados, marcados nesses precisos tons. Ali, naquele instante passante, eu vi a brevidade de tudo, quando Gimel levantou a mão, do mesmo lado do coração, o mais alto que pôde e, também alto bradou palavras e com voz severa me ordenou urgentemente fizesse os três pedidos, os quais eu tão-somente expressei, posto que já os trazia ao longo caminho, muito desejadamente.

 

O primeiro pedido eu lhe disse temente de que não o cumprisse, pois, justo ele, um ser tão estranho, seria o meu suposto atendente? Mas eu apressadamente me fiz requerente ao dizer: retire a traição do humano coração, que o Senhor refaça esse órgão, sem mais querelas, nesse aspecto eu quero ver o homem novamente bom.

 

Fez-se um silêncio sepulcral, pareceu-me um instante letal, contei três segundos de um modo eternal, porém tudo me pareceu igual. Tal era o meu anseio de não mais rever as faces da traição, aquela cara lívida, amarela, descabida, coroada de mentiras, já franzida, com acumuladas rugas nos olhos, querendo escondê-los da verdade, uma cara disfarçada, camuflada, intentando ocultar a desnuda realidade.

 

De fato, após a ousada petição, não vi nada acontecer, apenas ouvi o gênio me dizer: - Faça o seu segundo pedido. E eu, pressuroso lhe respondi que não o faria sem o primeiro deles me atender. Então, ele me disse: - Está feito!

 

Pensei... objetei... mas desapercebido de algo acontecido, por isso, continuei...

 

Pois bem, sem delongas, fiz-lhe o segundo pedido, sequer pestanejei, e com potente voz poética o desejo bradei, enquanto os grãos dum azul-índigo caíam na ampulheta e um arrepio visitava o meu umbigo, a minha barriga estava alaranjada de medos. Embora o temor e o tremor, as palavras saíram ousadas, quão corajosas me pareceram advindas d'um'outra pessoa que não eu ali, algo ainda tonto pelos odores de óleos, em fumaças exalados da lamparina. Somente disse, seja também o fim da mentira, ela, a irmã dileta da traição.

 

Gimel retrucou-me, atrevido: — Por que me pede a beirada dos impossíveis? E acrescentou arguindo: — Acaso você quer aniquilar com o gênero humano? O homem e a mentira são irmãos do tempo, quase siameses, sem a mentira, parenta em primeiro grau da hipocrisia, essa humanidade, como ela é, sequer existiria. Não lembra de Adão? Olvidou-se de Eva? Eu, Gimel, estava entre arbustos no Éden quando os vi mentir por vez primeira. Depois, vi Caim matar Abel e mentir, vi guerras e mortes por elas forjadas. Meu avô um dia me chamou e pausadamente falou, muito cedo ele me ensinou, que aquele que rouba, mente, e eu não deveria roubar os pedidos que me fossem feitos, nem mentir sobre a sua concretização. Imagine você, o ladrão estará roubado com o ato de mentir dele retirado, pois, sem a mentira, todo roubo será confessado. Isso é um terrível laço para todo humano, será desse gênero o seu fracasso. Temo, ao separar o homem e a mentira, pois eu posso para sempre mutilar esse ser, irremediavelmente, como quem busca separar duas laudas de papel, coladas pelo grude de milênios. Mas, se me pede, se de fato quer, eu agora o faço!

 

Senti um estremecimento por dentro, um calafrio nas costas, senti-me diverso do que tinha sempre sido, algo de mim pareceu ter ido, não sei, nem tanta conta naquele momento eu dei. As palavras me soaram mais honestas na petição seguinte, era a derradeira, não poderia titubear, de modo algum falhar, mas o que pedir, dizer? O que eternamente, com poder, transformar?... Tive apenas três segundos para pensar e o gênio me instar a fazer o pedido certeiro, porque depois ele estaria para sempre liberto e faceiro. Então, como não teria outra ocasião, pedi a Gimel para acabar, banir de todo peito, todo e qualquer preconceito, qualquer discriminação, fosse de raça, cor, gênero, religião, condição social, cultural, étnica, linguística e etcetera.

 

O gênio nada me respondeu, piscou com o olho direito, acenou com a cabeça como quem diz sim e o último pedido, ele, bem depressa, me atendeu. 

 

Num instante, num relance, ele sumiu e eu fiquei só, com a lâmpada ainda aberta e um certo vazio em mim. Eu me sentia estranho, qual um passarinho novinho jogado fora do seu ninho. Será que o gênio, de fato, atendeu os pedidos meus? Conjecturei.

Continua na Parte II


Ismael Machado
Poeta e escritor

A liberdade de Gimel, algo genial - Parte II

Ao sábio Gibran Khalil Gibran

Parte II


Saí pela cidade, perambulante, fui ao Banco ver gente, sacar algum dinheiro e me veio o banqueiro, um homem vistoso, bem apessoado, com palavras difíceis, dizendo-me a mais pura verdade, e ele foi logo sendo honesto e me devolvendo os juros indigestos pela metade, e eu de surpreso, levemente rude, naquilo que os olhos constatavam, crer nele, eu confesso que não pude. Eu, do que o homem me deu, quis lhe retornar um bocado, porque já estava acostumado a ser tantas vezes usurpado. Porém, ele foi mesmo sincero e eu apenas lhe disse, Amém!

 

Então, veio a mim Madalena, casada, pelo marido bem-amada, com três filhos criados, graúdos, há quantas bodas esposada, mas o marido por ela traído, pobre homem, mal sabia de quanto ocorrido. Entretanto, ela se disse arrependida, assim, de mim, reduzi-me a dizer-lhe que mudasse de vida, ao que ela m’o prometeu doravante deitar-se unicamente com o seu esposo sobre o leito da lealdade, jurou comer na panela cotidiana da fidelidade, arroz e feijão, e viver na mais pura simplicidade. Porque não sou tolo, desconfiado, de todo não cri, argui por dentro, será que eu poderia dar a ela um crédito, em realidade, sem forçar qualquer amizade? Lembrei-me naquela hora da primeira petição feita ao gênio com tamanha sinceridade, acaso não era aquela minha mais desejada intenção? Vi uma névoa sobre a cabeça da mulher e não entendi… parecia mais reluzente que o pó na ampulheta presente.

 

Também, encontrei-me com um filho que havia mentido, roubado e traído o próprio pai, devido à sua luxúria, deixando aquele que era mais do que o seu amigo em uma completa penúria. O seu nome era Dimas, um cidadão romano, nascido na mesma cidade que hoje circunda o Vaticano, e ele se dizia, igual à tal mulher, arrependido, porém, gostaria de, para aliviar o seu tormento, com atitudes, demonstrar o seu vero arrependimento. Estava em rubras cores deveras envergonhado, e não queria sequer mencionar os atos de seu tenebroso passado.

 

Em seguida, vi um homem negro, cultura afrodescendente, notadamente gay, origem nordestina, na vida contava tantos papéis, estava estirado sobre cordéis, pelas vestes, presumidamente pobre, ali no meio da rua, por quantas pechas caído, ou, talvez, até por algum atentado acometido, contudo, ele justamente ser socorrido por um homem branco, loiro, olhos azuis-celestes, bem-vestido, sabidamente rico, só pelo carro estacionado ao lado, provavelmente de origem europeia, bem-nascido, bem-criado, disseram-me tratar-se de um fulano de tal, super votado para o edílico municipal. Era uma visão quase celestial, surreal, eu não podia crer naquilo não, estava surpreendido, estarrecido. Porém, ainda lembrei da lâmpada mágica e do derradeiro pedido.

 

Haviam sido três petições, englobando quatro graves problemas para uma cabal solução, nessa ordem: a traição, a mentira, o roubo e a discriminação. Três em quatro o feito, na prova da soma dá sete, o que estava perfeito.

 

Depois, segundos, a consciência eu recobrei, acordei algo assustado, escutei ao longe, três sinos franciscanos repicavam na torre ao alto na catedral, virei-me na cama, sem pensar levantei, olhei ao redor, o calendário no criado-mudo marcava o dia quatro de julho, avistei o despertador, eram sete horas e quatro minutos, ainda lembrei-me do sonho, do gênio, da lâmpada dourada e dos pedidos feitos, apressadamente anotei algumas palavras no meu caderno de apontamentos, dirigi-me ao banheiro e rapidamente eu me lavei, aprontei-me, e o roteiro diário do trabalho tomei. Quando lá cheguei bati o registro eletrônico de entrada, ergui os olhos para o relógio de paredes e vi que eram oito horas em ponto, hora cravada, hora do eito, igual àquela marcada no relógio preso no meu pulso direito. Também, na parede, aquele muro branco, ao lado do relógio, estava uma cruz e acima de ambos havia um conselho que eu sempre lia, o qual em poucas palavras dizia: 

“­­—Jamais se esqueça daquelas coisas que lhe fazem sorrir.”…


Ismael Machado
Poeta e escritor

sábado, 12 de setembro de 2026

Mais de 450.000 visualizações


Bem feliz ao completar mais de 450.000 acessos na página do meu Blogue do Lado Avesso.


Agradeço imensamente a você leitor(a), o(a) destinatário(a) dessas postagens, desse trabalho cuidadoso e semanal.


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O Blogue foi criado com um propósito cultural e mantém o seu foco desde o início. Você pode participar também, basta clicar no botão azul Seguir, do lado esquerdo da tela.


Um grande abraço e tudo de bom pra você!


Ismael Machado


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Vem aí a 2a. edição do livro "Folhas de março", uma edição comemorativa pelos 20 anos do 1o. livro


Vem aí a 2a. Edição (Revisada e Atualizada, incluindo novos textos) do meu 1o. livro: "Folhas de março", com prefácio do professor Paulo Nolasco (1a. edição) e comentários de Sylvia Cesco (2a. edição). O livro está no prelo (fase de impressão).

Trata-se de uma edição comemorativa pelos 20 anos do lançamento desse meu primeiro livro.

A pré-venda está disponível com o autor.

Grato, abraço, Ismael Machado.