Translate

sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Imoerador Dom Pedro II

O Imperador do Brasil, Dom Pedro II, em traje de corte, aos 39 anos, em 1865. Um dos personagens mais ilustres da história do Brasil, D. Pedro II permanece até os nossos dias como uma figura emblemática e ao mesmo tempo fascinante. 


Suas fotografias o apresentam como um homem sério, contemplando um ponto além do alcance das lentes do fotografo, geralmente imerso em algum pensamento do qual só ele e suas longas barbas conhecem o segredo. 


Essa imagem foi postumamente plasmada pela imprensa e pelos livros de história, que transformaram o segundo imperador do país numa espécie de ícone. Nem mesmo a República, com todo seu trabalho voltado para a desconstrução de nosso passado imperial, conseguiu derruba-lo de seu pedestal.


Aos 5 anos, Pedro de Alcântara tornou-se Imperador de Brasil. Devido à tenra idade, o governo foi entregue à três regentes e, posteriormente, para apenas um. Essa fase tumultuosa da história do Brasil, que vai da abdicação de D. Pedro I em 1831 até a proclamação da maioridade do príncipe, em 1840, aos 14 anos, ficou conhecido como período regencial. Nesse processo, o país foi palco de muitas revoltas de cunho separatista ou que pregavam o retorno do primeiro Pedro. 


Essa situação foi parcialmente resolvida com a ascensão do menino-imperador ao trono. Logo, uma preocupação tomou conta dos ministros: era preciso garantir a sucessão ao trono.


Em outras palavras, D. Pedro II precisava se casar, de preferência com uma noiva que pertencesse a uma das grandes casas dinásticas europeias, como os Bourbon ou os Habsburgo. Entretanto, havia um problema: “a família imperial não era rica, o Brasil era um país distante, exótico, sem importância”. Além disso, explica José Murilo de Carvalho, havia o precedente de D. Pedro I e seus escândalos extraconjugais. 


“As famílias reais europeias se perguntavam, naturalmente, se o filho não teria puxado ao pai em matéria de relacionamento” (2007, p. 51). Durante a infância, os instrutores do menino Pedro temiam que ele seguisse o mau exemplo do seu progenitor, educando-o de forma a se tornar o oposto dele.


Texto: Renato Drummond Tapioca Neto

Imagem: Fotografia de Reverter Henrique Klumb

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Baco, texto-poema de Raquel Naveira


O vinho é um símbolo milenar, presente em diversas culturas e religiões desde os rituais antigos de colheita e banquetes até o cristianismo.


Há o vinho da alegria, da plenitude da vida, sinal de festa de casamento ampliada noite adentro. Regada pelo melhor vinho. É amor nupcial, fecundo e jubiloso como nas Bodas de Caná. Esse vinho aponta para outro: o da Última Ceia, o sangue derramado, o sacrifício, o transbordamento de sentido.


Por outro lado, o vinho da Babilônia, do sistema do mundo, é duro e ambíguo. Todas as nações beberam desse vinho e se corromperam. Vinho cheio de fúria, de sedução, de poder, de riqueza e domínio. Quem bebe desse vinho fica entorpecido, fascinado, sem discernimento moral, confuso. É uma mistura adulterada com metanol. Veneno em taça de ouro. Barbárie travestida de progresso.


O deus Baco ou Dionísio, cultuado na Antiguidade greco-romana, era luz e vertigem no mesmo cálice. Deus do prazer, da fertilidade, do teatro. Impressionante o quadro “O Jovem Baco”, de Caravaggio (1571-1610), o pintor italiano que criou uma obra possante, naturalista, às vezes brutal. Caravaggio tinha personalidade inquieta, enfrentou várias vicissitudes, cometeu um homicídio, faleceu em circunstâncias obscuras na Toscana, aos 38 anos.


Foi genial, inovador, penetrou na realidade crua da condição humana. O seu jovem e pálido Baco, exposto num museu de Florença, é sensual, vulnerável, reclinado com uvas e folhas de videira nos cabelos. Toca ligeiramente o cordão do seu roupão frouxo e drapeado. Uma cesta de frutas apodrecidas sobre a mesa de pedra mostram que tudo é efêmero. Um jarro de vinho tinto. Com a mão esquerda nos oferece uma copa de vinho roxo. Há humor e ironia na sua face ruborizada. Transmite erotismo, fantasia e tentação.


Inspirada em Baco e nesse quadro dramático, escrevi o poema “Convite de Baco”:


Eu andava sozinho pelo vale

Quando descobri a uva e fiz dela o vinho,

Derramei-o pelo caminho

Pelo ninho de víboras das almas;

Seguiu-me um cortejo estranho


De homens vestidos de mulher,

De mulheres cobertas de pele,

De bodes tocando flautas;

Pelos campos e aldeias onde passamos,

Todos largaram seus labores

E vieram nos entoar louvores;


No palácio

Minhas bacantes enfurecidas

Mataram o rei a dentadas

E ungi de sangue o trono

E a boca do outono.


Do meu cântaro de vinho

Escorrem promessas de carinho,

De coragem,

De cura sem medida;

No meu cântaro de vinho

Borbulharam a loucura e o prazer


Desde as safras mais antigas;

Com meu cântaro de vinho

Serás um deus

E não mais um verme mesquinho;


Vem comigo,

A minha trilha é sem espinho,

Ontem descobri a uva e fiz dela o vinho.


Baudelaire (1821-1867), o poeta, ensaísta, fundador da tradição moderna em poesia, escreveu em seu livro “O Spleen de Paris”: “É preciso estar sempre embriagado. Tudo está nisso: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que quebra vossos ombros e vos inclina para a terra, é preciso embriagar-se sem trégua. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.” Sim, é preciso encontrar algo que nos arrebate, que tire o peso da nossa finitude, da banalidade de nossa existência. O escape do ambiente que nos causa indignação a cada dia.


Quem me vê com lábios trêmulos, com a aparência febril de quem tem o espírito atribulado e suplicante, pensa, certamente, que ando embriagada.


Raquel Naveira


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O corvo, de Edgar Allan Poe (tradução de Machado de Assis)


Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, cahindo de somno e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
 E disse estas palavras taes:
«É alguem que me bate à porta de mansinho;
«Há de ser isso e nada mais.»

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial
Dezembro;
Cada braza do lar sobre o chão reflectia

A sua ultima agonia.

Eu, ansioso pelo sol, buscava
Saccar d’aquelles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dôr esmagadora
      
D’estas saudades immortaes
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
 E que ninguem chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por elle padecido.
Enfim, por applacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de prompto, e: «Com effeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
«Que bate a estas horas taes.
«É visita que pede à minha porta entrada:
«Há de ser isso e nada mais.»

Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacillo e d’esta sorte
Fallo: «Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
«Me desculpeis tanta demora.
«Mas como eu, precisado de descanço,
«Já cochilava, e tão de manso e manso
«Batestes, não fui logo, prestemente,
 «Certificar-me que ahi estaes.»
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.


Com longo olhar escruto a sombra,

Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra unica e dilecta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca saes;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co’a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Sôa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ella:
«Seguramente, há na janella
«Alguma cousa que sussura. Abramos
«Eia, fôra o temor, eia, vejamos

«A explicação do caso mysterioso
«D’essas duas pancadas taes.
«Devolvamos a paz ao coração medroso,
«Obra do vento e nada mais.»

Abro a janella, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortezias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E prompto e recto
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima vôa dos portaes,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Pallas;
repado fica, e nada mais.


Diante da ave feia e escura,
Naquella rigida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me alli por um momento,
E eu disse: «Ó tu que das nocturnas plagas
«Vens, embora a cabeça nua tragas,
«Sem topete, não és ave medrosa,
«Dize as teus nomes senhoriaes;
«Como te chamas tu na grande noite umbrosa?»
 E o corvo disse; «Nunca mais.»

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico attônito, embora a resposta que dera
Difficilmente lh’a entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
N’um busto, acima dos portaes,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: «Nunca mais.»


No emtanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que alli disse
Toda a sua alma resumisse.

Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma

Até que eu murmurei: «Perdi outr’ora

Tantos amigos tão leaes!
«Perderei também este em regressando a aurora.»
 E o corvo disse: «Nunca mais!»

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exacta! é tão cabida!
«Certamente, digo eu, essa é toda a sciencia
«Que elle trouxe da convivência
«De algum mestre infeliz e acabrunhado
«Que o implacavel destino há castigado
«Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
«Que dos seus cantos usuaes
«Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
 «Esse estribilho: «Nunca mais.»

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no velludo
Da poltrona que eu mesmo alli trouxera
Achar procuro a lúgubre chimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquellas syllabas fataes,
Entender o que quiz dizer a ave do medo
Grasnando a phrase: — Nunca mais.

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe fallava mais; mas, se lhe não fallava,
Sentia o olhar que me abrazava.
Conjecturando fui, tranquillo, à gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada cahiam
Onde as tranças angelicaes
De outra cabeça outr’ora alli se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Suppuz então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de seraphins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro thuríbulo invisível;
E eu exclamei então: «Um Deus sensivel

«Manda repouso à dor que te devora
«D’estas saudades immortaes.
«Eia, esquece, eia, olvida essa extincta Lenora.»
E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Ave ou demônio que negrejas!
«Propheta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
«Onde reside o mal eterno,

«Ou simplesmente náufrago escapado

«Venhas do temporal que te há lançado

«N’esta casa onde o Horror, o Horror profundo
«Tem os seus lares triumphaes,
«Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?»
E o corvo disse: «Nunca mais.»


«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Ave ou demônio que negrejas!
«Propheta sempre, escuta, attende, escuta, attende!

«Por esse céu que além se estende,
«Pelo Deus que ambos adoramos, falla,
«Dize a esta alma se é dado inda escutal-a
«No Éden celeste a virgem que ella chora
«Nestes retiros sepulchraes,
«Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!»
E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Ave ou demônio que negrejas!
«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
«Regressa ao temporal, regressa
«À tua noite, deixa-me commigo.
«Vae-te, não fique no meu casto abrigo

«Pluma que lembre essa mentira tua.
«Tira-me ao peito essas fataes
«Garras que abrindo vão a minha dor já crua.»

 E o corvo disse: «Nunca mais.»

E o corvo ahi fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Pallas; ei-lo immutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz cahida
Do lampeão sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fóra
D’aquellas linhas funeraes
Que fluctuam no chão, a minha alma que chora

Não sai mais, nunca, nunca mais!

Edgar Allan Poe