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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A idade em que o tempo senta à mesa

Existe uma fase da vida em que o espelho começa a nos tratar com uma sinceridade quase ofensiva.


Os cabelos debandam discretamente. Os joelhos passam a emitir boletins sonoros. A memória, às vezes, resolve brincar de esconde-esconde justamente com o nome daquela pessoa que acabamos de encontrar no supermercado.


E há também o fenômeno m³ais cruel de todos: levantar da cadeira emitindo um “opa!” involuntário… como se a coluna precisasse de autorização verbal para funcionar.


Mas talvez exista uma beleza secreta nisso tudo.


Porque, enquanto o corpo vai lentamente negociando limites com o tempo, a alma — curiosamente — começa a ficar maior.


Mais generosa. Mais paciente. Mais humana.


Chega uma idade em que já não precisamos vencer discussões inúteis. Nem provar inteligência. Nem disputar importância. A vida finalmente nos ensina que certos troféus pesam mais do que valem.


Então começamos a trocar pressa por presença.


E isso muda tudo.


O café deixa de ser apenas café. Vira cerimônia. Vira encontro. Vira desculpa para conversar sem relógio.


As amizades antigas ganham um brilho raro.


Porque sobreviveram às décadas, aos desencontros, às mudanças, às perdas, às teimosias e até às opiniões políticas — milagre estatisticamente improvável para homens acima dos setenta… especialmente em grupos de WhatsApp.


E o amor… Ah, o amor também muda.


Já não precisa incendiar o mundo. Basta aquecer o coração.


Às vezes, ele chega na forma de uma mensagem simples: “-Você está bem?”


E pronto. Aquilo ilumina o dia inteiro.


Descobrimos também que aventura, na maturidade, ganhou novos significados.


Dormir a noite inteira sem acordar duas vezes para ir ao banheiro virou quase uma experiência transcendental. Encontrar um exame médico com todos os índices normais provoca emoção semelhante à conquista de uma Copa do Mundo. E viajar sem esquecer os remédios já pode ser considerado um ato de ousadia internacional.


Mas existe algo profundamente épico em continuar vivendo com ternura apesar de tudo.


Apesar das ausências.


Apesar das despedidas.


Apesar dos amigos que partiram cedo demais e deixaram cadeiras vazias em nossas mesas e silêncios difíceis de explicar.


Ainda assim… continuamos marcando encontros.


Planejando viagens. Rindo das mesmas histórias.


Inventando motivos para celebrar aniversários.


Plantando ipês brancos em algum canto da memória.


Talvez seja isso que sustenta o mundo sem que a gente perceba: homens e mulheres comuns insistindo delicadamente em continuar amando a vida.


Porque envelhecer não é desaparecer.


É diminuir o barulho externo para escutar melhor o essencial.


É descobrir que felicidade talvez nunca tenha sido uma linha de chegada. Era apenas aquela conversa boa depois do almoço… o telefonema inesperado… o abraço demorado… o amigo que ainda lembra do seu apelido de juventude… e a mesa onde alguém sempre guarda um lugar para você.


No fim das contas, talvez a grande vitória da maturidade seja esta: aprender que a vida não precisa mais correr.


Agora ela pode apenas… sentar conosco à mesa.


Fabrício Carpinejar

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Meu pequeno hino, uma nota poética antiga

Pôr do sol em Jericoacoara-CE, 
foto by Ismael Machado.

Ver o pôr do sol ali em Jeri é iluminar-se de horizontes. É um festival, um arrebol de cores, entardecendo dentro de si.


Em Jericoacoara parei, sentei e contemplei, um espetáculo digno dos mais efusivos aplausos. Pergunto, qual casa teatral poderá apresentar por tanto tempo uma peça assim tão magistral e sempre diversa, sem igual?!... Belo e formoso, resplandece majestoso e refulgente do Oriente ao Ocidente. Seus raios nos alcançam com dádivas, com mãos potentes.


Majestosamente se põe o Astro Rei. E eu bem sei que a vida e os ventos, com ele, bem ao longe me levarão, mais além, ó fonte da vida terrena e dos insondáveis mistérios da morte.


Pôr do sol em Jericoacoara-CE, 
foto by Bárbara Sampa.

Bendiga, ó minh'alma, ao seu Criador, e tudo o que há na Terra e em mim, a Ele bendiga pelas suas obras sem fim.


Com as minhas faces, com a cara assim iluminada, alaranjada, vejo o pôr mais lindo do Sol, justo enquanto ouço o canto do Siará, tupi-guarani, em Jericoacoara. Em certo sentido somos todos filhos e filhas do Sol, pois dele emanam a luz e a vida pulsante, vibrante. Ele acende sua imensa chama e incendeia as piras, os altares, os lugares, para velar por nós mortais. Nesse lugar assim lindo eu quero estar e, por anos a fio, ali ficar.


Saí da toca, junto de tantas tartarugas marinhas, somos seres navegadores de mares, das profundezas da vida. Quando ele, o Sol, se levanta, desde milênios de milênios, então, vai abençoando a Terra, os demais Planetas e todos os seres vivos ou inanimados.



Pôr do sol em Fernando de Noronha-PE, 
foto by Ismael Machado.

Nessas linhas segue inscrita uma nota poética antiga, andina e egípcia, uma espécie de códice ou hieroglifo, que em tempos modernos destaco, aqui coloco o meu grifo.


Logo em seguida ao poente surgirá nos céus a Lua em sua fase crescente. Ela virá dar forças ao surgimento dos sonhos do povo, das gentes. Lua de Prata e jangada dourada anseiam por trilhas de Sol, por suas belezas e riquezas. Vão no compasso das tartarugas, lentamente, segundo após segundo, qual o Sol se pondo, vão todos vagarosamente, preguiçosamente, melancolicamente. Lua, Sol e jangadeiro seguem a solidão das estrelas.


Aqueles foram dias feitos só de Sol, lá para onde fui e não queria voltar, um lugar ao Leste. Pois, me parece que sempre será melhor seguir por roteiros de Sol e de mar.


        
Pôr do sol em Campo Grande-MS, 
foto by Ismael Machado.


Com suas cores e incontáveis pores, dia após dia, um espetáculo antimonotomia com tamanha policromia.


Sem a sua luz, sem o seu calor, a vida fenece, mas consigo ela floresce e se move, cresce. Seus mistérios são revelados aos homens em seu curso do Leste ao Oeste. Em aproximadas doze horas geométricas, sob o signo dos números, primeiro o que princípia a vertical e depois o que se dobra entre o círculo e a reta, vê-se desde o seu nascer, percorrer os caminhos dos seres vivos, e ao Oeste se deitar, assim, consigo, o dia vai se findar.


Há quantos becos na Terra, algum deles quer ser o jardim de uma vida inteira, outros inominados. Mas para o Sol não há quaisquer becos, quando ele se levanta ao Leste as rotas se tornam fecundas.

Foto do nascer do sol em Campo Grande-MS, 
by Marcus Ferraz.

Bem sei que há incontáveis sinais do Sol por toda a parte e sequer os números dão conta deles. As sublimes cores do Sol procriam as divinas flores astrais. Quanto a nós, meros humanos, mortais, somos quais vermezinhos na imensidão do Universo. 

Em Jijoca, calamares me dão o merecido repouso do trabalho, numa calamarina aconchegante, bem aos pés da praia, de onde o mar vem, gentilmente, levar minhas mágoas e dissabores.

Eia, pois, o meu canto, um breve hino à Luz, a esse sinal e símbolo maior do seu Criador, precisamente o Sol, também fazedor das vias, tracejador dos nossos caminhos, dos meus e dos seus pequenos passos.

Possamos sempre nos lembrar de que a Luz nunca se extingue e que ela virá ao alvorecer, com o Sol, para espargir os seus raios gloriosos, raios jubilosos.


Ismael Machado

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O que nunca foi, de Sidnéia Miato


Sidnéia Miato

Dez anos de trocas;
Três anos de idas e vindas,
Mas nenhum registro.

Não temos uma foto,
Nunca tivemos um date,
Nunca dormimos juntos,
Nunca saímos de mãos dadas,
Nunca fomos ao cinema,
Nunca ganhei um ursinho,
Nunca ganhei flores.

Há as memórias, minhas e tuas:
As tuas, escondeste de mim,
Mas o tempo, o retorno e o seu corpo
Contam-me!
As minhas, eram vivas e apaixonadas,
Eram, porque agora elas estão em ato
Fúnebre.

Você disse que eu deveria me acostumar 
Com o seu jeito pingue-pongue,
Apesar de me adorar e me achar foda!
Você me deixou ir embora.

Sidnéia Miato

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Supostas prisões, uma ode à liberdade


Há prisões neste mundo em doenças que prendem os moribundos

aos seus leitos de dores, dos quais a morte vem, depois, libertar.

 

Há prisões em corpos esculturais, presos às suas paixões e  a determinados padrões e em prazeres do sexo, do poder e da fama.


Há prisões hedonistas, sádicas e masoquistas.

Em tristezas contidas, depressões, em frases não ditas, em dores conscientes, confessas, dissimuladas, há prisões.

 

Há prisões não supostas em vícios vários, a princípio prazerosos, mas em formato de algemas que fazem gemer depois.

 

Há prisões que badalam os seus sinos, chamando os inocentes ou pobres pecadores às suas celas de doutrinas, para as quais os incautos prisioneiros caminham ainda cheios de esperanças.

 

Há prisões que prendem os seus amores em reais horrores, e machucam por dentro e fora.

 

 

Há prisões em países com parcos recursos para a educação, capazes de aprisionarem gerações e gerações.

 

Há prisões em si mesmo, as quais prendem mais do que as grades de metais das cadeias, donde é difícil se soltar


Necessitam psicólogos, psiquiatras, quais carcereiros, para ajudar na soltura de traumas e tramadas celas escuras do inconsciente.

 

 Há prisões em palácios com as suas cercas elétricas, portões eletrônicos e altos muros de medo.

 

Há prisões nas sarjetas e em maltrapilhos famintos de igualdade e fraternidade.

 

Há prisões que prendem os pais e os filhos em distâncias não transpostas.

 

Há prisões supostas ou não, mas o ser em si anseia pela vida e pela liberdade.

 

Ismael Machado, Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil.

Duas notas: 

1) Poema objeto de estudo no PROFLETRAS (Mestrado Profissional em Letras em Rede Nacional), Disciplina de Leitura do Texto Literário, da UEMS, no dia 17.08.26.

2) No Dia da Revolução dos Cravos, 25.04.21, uma excelente notícia, meu poema "Supostas prisões, versos livres", publicado em Portugal, na antologia Liberdade, pelo Grupo Editorial Atlântico/Chiado Editora.