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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A literatura perdeu um de seus filhos mais devotados

Dourados perdeu ontem, 28.10, um de seus filhos mais ilustres. A literatura sul-mato-grossense perde um de seus estudiosos mais dedicados. E a universidade se despede de um mestre cuja contribuição ultrapassou os limites da sala de aula para alcançar a pesquisa, a crítica literária e a própria construção da vida cultural do Estado de MS. Paulo Sérgio Nolasco dos Santos, professor, escritor, pesquisador e integrante da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, morreu nesta quarta-feira, aos 68 anos, em sua cidade natal.

Nascido em Dourados, em 1º de junho de 1958, Paulo Nolasco construiu uma trajetória na qual o rigor da investigação intelectual nunca esteve dissociado do compromisso com a cultura e com a formação humana. Graduado em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), mestre em Teoria da Literatura pela Universidade de Brasília (UnB) e doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fez do estudo da literatura uma vocação permanente e uma contribuição duradoura ao pensamento acadêmico.

Sua atuação foi decisiva para o desenvolvimento dos estudos literários em Mato Grosso do Sul. Participou da criação do Mestrado em Letras da UFMS e presidiu a comissão responsável pela implantação do mesmo curso na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), instituição na qual exerceu a docência e contribuiu para a formação de pesquisadores e professores. Seu trabalho ajudou a consolidar espaços de produção e circulação do conhecimento, ampliando as possibilidades de investigação sobre a literatura brasileira, a literatura comparada e as expressões culturais do Brasil Central.

Mas reduzir Paulo Nolasco à dimensão universitária seria limitar a compreensão de sua importância. Escritor e crítico de reconhecida dedicação, voltou seu olhar para as relações entre literatura, sociedade, território e identidade cultural. Em livros como Nas malhas da rede: uma leitura crítico-comparativa de Julio Cortázar e Virginia Woolf, Literatura Comparada: Interfaces e transições, Ensaios farpados: Arte e cultura no Pantanal e no Cerrado e O Outdoor invisível: crítica reunida, deixou registros de uma inteligência inquieta, empenhada em compreender as aproximações, tensões e singularidades que atravessam a produção literária.

A literatura regional, em sua perspectiva, não era um apêndice menor da cultura brasileira, mas um campo fértil de investigação, capaz de revelar a complexidade histórica e simbólica de uma região marcada por fronteiras, encontros e intercâmbios. Ao estudar as relações entre o Pantanal, o Cerrado e as literaturas de fronteira, Nolasco contribuiu para ampliar o horizonte crítico sobre Mato Grosso do Sul e para afirmar a relevância de sua produção intelectual no cenário nacional.

Sua atuação também alcançou importantes instituições científicas e literárias. Participou do Conselho da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) e coordenou grupos de trabalho da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL), além de participar de congressos no Brasil e no exterior. Essa interlocução com pesquisadores de diferentes procedências ampliou o alcance de seus estudos e aproximou Dourados de uma rede intelectual que ultrapassava as fronteiras do Estado.

Ao lado dessa trajetória acadêmica, permaneceu ligado à vida de sua cidade. Além de professor e intelectual, Paulo Nolasco também colaborou com a administração municipal como assessor especial do prefeito Luiz Antônio Álvares Gonçalves, levando sua experiência e sua formação para o espaço público. Essa passagem reafirma a amplitude de uma atuação que não se restringiu à produção de livros ou à atividade universitária: o conhecimento também pode servir à comunidade e participar da reflexão sobre os rumos da cidade.

Na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, onde ocupava a Cadeira nº 20 desde sua posse, em novembro de 2006, encontrou uma casa institucional para o compromisso que sempre manteve com a palavra, a literatura e a preservação da memória cultural. Também integrou a Academia Douradense de Letras, vínculo que reforçava sua relação com a cidade onde nasceu e à qual permaneceu ligado ao longo da vida.

A morte de um intelectual não se mede apenas pela ausência que deixa entre familiares, amigos, colegas e alunos. Mede-se também pelo silêncio que ameaça ocupar os lugares onde antes havia perguntas, descobertas e novas possibilidades de compreensão do mundo. No caso de Paulo Nolasco, porém, esse silêncio não será absoluto: permanecerão os livros, os estudos, os projetos acadêmicos, as gerações que ajudou a formar e as ideias que colocou em circulação.

Dourados se despede de um de seus filhos, mas não perde aquilo que ele construiu com o tempo, a inteligência e a dedicação. Sua obra permanece como testemunho de uma vida entregue ao conhecimento e como parte do patrimônio intelectual de Mato Grosso do Sul. É por ela, sobretudo, que o professor continuará dialogando com os leitores, os pesquisadores e aqueles que ainda descobrirão, nas páginas de seus livros, a dimensão de sua contribuição.

Fonte: Contraponto MS, Valfrido Silva.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

A mesma paz de espírito


A meta é ter a mesma paz de espírito desse
autor desconhecido, 
quando disse:

"Eles me insultaram em 70 linhas. 
Apenas os erros gramaticais me incomodaram."

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Dor de Brasil

Parte I

Hoje eu acordei com uma dor de Brasil. Com tantos ais na garganta, uma dor gigante pela sua própria natureza, levantei-me rapidamente do meu compartimento esplêndido e corri para o "toilette". Interessante, em francês, até o nome da latrina para defecar me parece mais elegante.


Em verdade, tenho uma vontade de vomitar, que me veio daquele primeiro pleito, digo, peito, de um jeito que decerto irei sujar os carpetes azuis ou verdes dos salões dessa pátria amada, em realidade, armada de vermes cultivados no ventre. Ai, que dor intensa que a barriga ostenta, uma dor varonil.


Sinto um soco, um "jab" e direto, de direita, bem dado na borboleta no estômago, para que ela não possa voar mais, sobretudo em outros pretendidos anos ditatoriais.


Sentado, no trono, pensando o imperialismo americano, felizmente decadente, conjecturo: - Onde estar, existir, sem o cuidado com o semelhante, com o social?


Ontem, acho que exagerei no chá verde dos Bragança, ou foi aquele outro, o amarelo, um presente dos Habsburgo, chás alucinógenos aqueles, justamente tomados no obscurantismo desses dias, eles me complicaram o intestino delgado e me roubaram a lucidez, talvez, devido à fervura, ou ao mau caráter deles, veros ladrões das grã-finas porcelanas. Agora, faz-se iminente evacuar, esvaziar o intestino grosso e de modos despudorados, sem quaisquer decoros.


Tem gente que ainda pensa que toda família é nobre... que todos os seus filhos foram criados e eleitos para os melhores propósitos... 


Um sonho intenso esse! Utópico.


O sanitário me cairia bem, deporia ali o nojo que sinto do fascismo, desse radicalismo desentortado, pois, esvaem-se nele o primeiro e o segundo cérebros. 


Ai, que dor de Brasil, pois a minha barriga dói com uma lógica mefistofélica, e a minha ética dói com modos aristotélicos.



Parte II

Ó, socorro, minha mãe gentil, socorro Franciscos, Manuéis, Machados e Silvas, alguns deles autores de hinos e poemas sacros, socorro, Marias, Santos e Souzas e todos desse solo, julguem esses dejetos pútridos, em meio à microbiota, eles fétidos de poderes e gazes que se vão aos ares e depois, como todos, patriotas, ou não, à terra descem.


Na hora derradeira, fatal, do juízo verdadeiro, final, ali enfileirados estarão os filhos e filhas, brasileiros e brasileiras e eu, com olhos transcendentes, verei cada um perante o Anjo da Morte, alguns ainda argumentando, tentando, com mentiras bradando, trazendo nas mãos jornais sujos de "fake news", por acreditarem piamente nelas, mas tendo vivido afastados de toda piedade. Neles o medo, a barriga dorida, retorcida, os dentes rangentes, a cara pálida, pintada com o horror de si mesmos, porém, antes de todo e de fato descrentes. Foram adoradores do dinheiro, mas no instante cabal não haverá nenhum socorro de centavo de metal. Do Banco Maldito, Master, na mente os registros das altas cifras, falcatruas, milhões, como apagá-las nessa hora, ou pagá-las agora?! O único Advogado possível foi morto por eles no passado longínquo de seus corações. Ainda que houvesse recurso nos tribunais das suas consciências, como advogar atos tais, esses indefensáveis? 


Enquanto isso, na terra idolatrada, resta um Sol de Esperanças que não se põem ao cair de tarde.


Por entre os risos ricos nos lábios de tamanha falsidade vão entremeadas as dores e incontáveis necessidades. Ó meu Pai, abençoai as hienas, brancas ou morenas, pentacampeãs mundiais, suas alegres aparentes dançarinas em fantasias de carnavais. 


Como compreender que alguém, um ser humano, racional, com o dedo polegar opositor, possa escolher, por vontade, a própria servidão? 


Putz, me lembrei, é que à noite sonhei com uma águia vermelha em seu dorso e, ela, de frente, atacava cruelmente o meu papagaio, verde-louro, mas ele gritava e não se entregava e falava tão alto e estridente que eu, de repente, despertei. 


Percebo, há urubus à espreita. Eles trazem suas bandeiras escuras com a inscrição "it was stolen", mas eles mesmos trazem as garras fétidas de carniças dos espólios. É difícil compreender que as pessoas tem o arbítrio de serem más. Denuncio aqui, formalmente, pois há um cristianismo que, explicitamente, não segue o Cristo. Todo aquele que vive e tem olhos pode ver.


Bem sei que o meu protesto não pode se conformar, a minha fé não irá se curvar aos poderes deste mundo  vil. Elevo os meus olhos ao céu, eles brilham o límpido anil.


Sou apenas um animal político, não consigo viver sem a comunidade. Afora as dores, desejaria tanto, para o meu povo, um pouco de felicidade.


O vento que toca minhas faces traz a mesma textura dos sonhos e das estrelas.


Ismael Machado