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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Só mais um poema...

 

Nantes Pisquila Júnior

Na escola, a professora enchia o quadro de giz, tentando explicar o que era um pretérito... um pretérito mais que perfeito. Eu olhava para aquela lousa verde, depois olhava para a janela e a conta simplesmente não batia.

 

Como eu iria conjugar a perfeição num lugar onde até o nosso passado simples foi sempre imperfeito? Onde algumas infâncias tiveram erros de concordância, a geladeira não tinha substantivo concreto e a barriga roncava sem nenhum adjetivo pra enfeitar a fome.

 

Na análise sintática dessa cidade, quem levanta o prédio é tratado como sujeito inexistente. Quem limpa o chão do Shopping às 5 da manhã vira sujeito oculto na frente de toda essa gente. É que o sistema te empurra para a voz passiva. Te amassa na engrenagem e te reduz a um objeto direto.

 

Você apanha da rotina, engole o seco e ainda exigem que o teu vocabulário seja sempre correto. A gente nasce debaixo do modo imperativo: trabalhe, obedeça, cale a boca. Abaixe a cabeça e não crie caso. E se você atrasa um boleto, os juros vêm com acento agudo cravado bem no meio do seu cansaço.

 

A nossa vida inteira fica presa na armadilha de um gerúndio que nunca acaba. É o povo trabalhando, correndo, devendo, sangrando, tentando, lutando e so-bre-vi-ven-do.

 

Enquanto todos os nossos sonhos são despejados lá para um futuro do pretérito, aquilo que eu seria, o que eu faria, onde eu chegaria se o meu tempo não tivesse sido roubado? Se o nosso presente do indicativo não fosse esse verbo defectivo que trava na garganta e nunca pode ser conjugado.

 

E para não preocupar quem a gente ama, a gente aprende na marra a usar a pontuação para se esconder, você abre um parêntese no banheiro do serviço, chora calado por três minutos, lava o rosto, fecha o parêntese e volta a sorrir. Ninguém vê o que está ali dentro.

 

O nosso fim de semana não é descanso, é só uma vírgula curta para puxar o ar (respira), no meio de uma oração subordinada a um salário mínimo. Uma frase longa, arrastada, que parece escrita só para deixar a gente sem fôlego. Mas o que os donos da caneta esqueceram é que as ruas também sabem reescrever a própria regra.

 

A gente cansou de ser complemento nominal da riqueza dos outros. Eu rasguei a folha da voz passiva para assumir a autoria do meu próprio texto. No grito, na marra e no peito aberto. Porque a verdade é uma só: eles tentaram colocar tantos pontos finais na minha vida que acabaram virando reticências... É isso!

Nantes Pisquila Júnior


quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Ave, Maria da Glória Sá Rosa

   Hoje, 04.11, ela faria 99 anos.

Ave, Maria,
cheia de Glória,
bendita és tu,
bendita és tu.

Que ora assentas
no escudo azul,
entre as estrelas,
entre as estrelas.


Tu te foste,
mas deixaste para nós,
tu te foste,
mas deixaste para nós,

o perfume de tua,
o perfume de tua,
Rosa…
Rosa…


Dorme, Sinhá Rosa,
Maria, que de Glória
encheste esta Terra
que aprendeste a amar.

Dorme, Sinhá Rosa,
Maria, que de Glória
encheste esta Terra
que aprendeste a amar.


Descansa em paz,
tu que tanto nos deste,
descansa em paz,
tu que tanto nos deste.

Nós, pobres, aqui ficamos,
nós, pobres, aqui ficamos,
a te saudar,
a te saudar.


Ave, Maria,
da Glória,
Sá Rosa!

Ave, Maria,
da Glória,
Sá Rosa!

Ave, Maria,
da Glória,
Sá Rosa!

Ave… Maria…
da Glória…
Sá Rosa…!

Silvio Santana

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

In the afternoon

 Para o  mestre e amigo Paulo Nolasco
(in memoriam)


Meu bom amigo e querido professor de tantas aulas de literatura, de viagens para o mundo fantástico dos livros.

Difícil pensar a vida sem o seu pensamento crítico para as letras, sem a sua maestria, sem a sua ajuda precisa, necessária.

É tão estranho, quase não acredito em sua partida repentina desta vida, justo você, tão culto, mestre,  doutor, e tão cedo se foi. Os intelectuais também partem, às vezes, precocemente. 

No seu caso, uma biblioteca inteira de livros lidos cerrou suas portas. Mas quantos outros tomos você ainda teria por ler, desvendar.

Sua generosidade e amizade será sempre lembrada com uma prece, um agradecimento pela sua existência. 

Você partiu cedo demais, nos deixou imersos em recordações, saudades.

A lembrança não foge do pensamento. Os anjos te acolherao, a paz te abraçará. 

As horas pararam no relógio.

Você se foi, mas sei que também fica no peito de quem te quer tanto bem.

Há uma certa beleza em tanta tristeza, mas nem sei dizer.

Havia tantos céus e mares pra conhecer e você já foi embora, nessa hora triste, que minh'alma chora.

O Sol se vai na tarde, pondo-se na linha que abarca o meu horizonte, enquanto vou, um após outro, sepultando amigos e familiares queridos.

A morte me parece mesmo uma estupidez, um desperdício. A morte é mistério profundo.

E o que sinto nem sei, pois, a dor e a tristeza sequer cabem em palavras. 

Decerto, estará com Woolf, Lispector, Borges, Cortázar em outros cafés e diálogos infinitos.

Tão breve a vida, às vezes, tão longa lida.

Ismael Machado 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A literatura perdeu um de seus filhos mais devotados

Dourados perdeu ontem, 28.10, um de seus filhos mais ilustres. A literatura sul-mato-grossense perde um de seus estudiosos mais dedicados. E a universidade se despede de um mestre cuja contribuição ultrapassou os limites da sala de aula para alcançar a pesquisa, a crítica literária e a própria construção da vida cultural do Estado de MS. Paulo Sérgio Nolasco dos Santos, professor, escritor, pesquisador e integrante da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, morreu nesta quarta-feira, aos 68 anos, em sua cidade natal.

Nascido em Dourados, em 1º de junho de 1958, Paulo Nolasco construiu uma trajetória na qual o rigor da investigação intelectual nunca esteve dissociado do compromisso com a cultura e com a formação humana. Graduado em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), mestre em Teoria da Literatura pela Universidade de Brasília (UnB) e doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fez do estudo da literatura uma vocação permanente e uma contribuição duradoura ao pensamento acadêmico.

Sua atuação foi decisiva para o desenvolvimento dos estudos literários em Mato Grosso do Sul. Participou da criação do Mestrado em Letras da UFMS e presidiu a comissão responsável pela implantação do mesmo curso na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), instituição na qual exerceu a docência e contribuiu para a formação de pesquisadores e professores. Seu trabalho ajudou a consolidar espaços de produção e circulação do conhecimento, ampliando as possibilidades de investigação sobre a literatura brasileira, a literatura comparada e as expressões culturais do Brasil Central.

Mas reduzir Paulo Nolasco à dimensão universitária seria limitar a compreensão de sua importância. Escritor e crítico de reconhecida dedicação, voltou seu olhar para as relações entre literatura, sociedade, território e identidade cultural. Em livros como Nas malhas da rede: uma leitura crítico-comparativa de Julio Cortázar e Virginia Woolf, Literatura Comparada: Interfaces e transições, Ensaios farpados: Arte e cultura no Pantanal e no Cerrado e O Outdoor invisível: crítica reunida, deixou registros de uma inteligência inquieta, empenhada em compreender as aproximações, tensões e singularidades que atravessam a produção literária.

A literatura regional, em sua perspectiva, não era um apêndice menor da cultura brasileira, mas um campo fértil de investigação, capaz de revelar a complexidade histórica e simbólica de uma região marcada por fronteiras, encontros e intercâmbios. Ao estudar as relações entre o Pantanal, o Cerrado e as literaturas de fronteira, Nolasco contribuiu para ampliar o horizonte crítico sobre Mato Grosso do Sul e para afirmar a relevância de sua produção intelectual no cenário nacional.

Sua atuação também alcançou importantes instituições científicas e literárias. Participou do Conselho da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) e coordenou grupos de trabalho da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL), além de participar de congressos no Brasil e no exterior. Essa interlocução com pesquisadores de diferentes procedências ampliou o alcance de seus estudos e aproximou Dourados de uma rede intelectual que ultrapassava as fronteiras do Estado.

Ao lado dessa trajetória acadêmica, permaneceu ligado à vida de sua cidade. Além de professor e intelectual, Paulo Nolasco também colaborou com a administração municipal como assessor especial do prefeito Luiz Antônio Álvares Gonçalves, levando sua experiência e sua formação para o espaço público. Essa passagem reafirma a amplitude de uma atuação que não se restringiu à produção de livros ou à atividade universitária: o conhecimento também pode servir à comunidade e participar da reflexão sobre os rumos da cidade.

Na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, onde ocupava a Cadeira nº 20 desde sua posse, em novembro de 2006, encontrou uma casa institucional para o compromisso que sempre manteve com a palavra, a literatura e a preservação da memória cultural. Também integrou a Academia Douradense de Letras, vínculo que reforçava sua relação com a cidade onde nasceu e à qual permaneceu ligado ao longo da vida.

A morte de um intelectual não se mede apenas pela ausência que deixa entre familiares, amigos, colegas e alunos. Mede-se também pelo silêncio que ameaça ocupar os lugares onde antes havia perguntas, descobertas e novas possibilidades de compreensão do mundo. No caso de Paulo Nolasco, porém, esse silêncio não será absoluto: permanecerão os livros, os estudos, os projetos acadêmicos, as gerações que ajudou a formar e as ideias que colocou em circulação.

Dourados se despede de um de seus filhos, mas não perde aquilo que ele construiu com o tempo, a inteligência e a dedicação. Sua obra permanece como testemunho de uma vida entregue ao conhecimento e como parte do patrimônio intelectual de Mato Grosso do Sul. É por ela, sobretudo, que o professor continuará dialogando com os leitores, os pesquisadores e aqueles que ainda descobrirão, nas páginas de seus livros, a dimensão de sua contribuição.

Fonte: Contraponto MS, Valfrido Silva.