para lá os teus pés te conduzem.
Santo Agostinho
Santo Agostinho
Quero
a alegria da juventude desenhada em cada traço dessa face poética.
Quero
a amizade, com grande intimidade da própria felicidade.
Quero
os mais belos poemas em minhas mãos, cantando e dançando, lavrando rimas que
tocam o azul.
Quero
as aves pousando serenas nos quintais de minha mente.
Quero bailar as mais clássicas valsas vienenses, nos salões mais nobres e éticos, mesmo eu usando o simples gentílico de um caa-rapo-ense.
Quero apalpar os meus sonhos, vê-los, cheirá-los, degustá-los, após sinestesicamente realizados, ouvidos, concretizados.
Quero
o aconchego da minha casa, construída com os tijolos dos melhores afetos.
Quero
a saúde nos meus dias, o sopro da vida, a força e a paz nos meus membros.
Anseio pelo viver bem até mais que os 100.
Sorrir,
amar, gozar o melhor da Terra, abraçar essa Gaia com os braços de um amante.
Quero
sim poder existir nas páginas da imortalidade e que minha alma beba o néctar
produzido nas inimagináveis mansões celestiais, donde possa contemplar as
belezas infindáveis.
Quero
o menino que vive e reina dentro de mim cantando, pulando e brincando com
beleza, pureza e leveza.
Quero
a chave das palavras, os olhos do paraíso, o beijo dos arcanjos. Serafins no
entorno e tocando em mim.
Quero
os meus pés descalços de toda maldade do mundo, ainda que palmilhando uma certa
ingenuidade, caminhando nas pegadas, nos passos da poeticidade.
Quero
compor um poema tão longo e belo, que derrame pelas bordas das capas, que não
caiba nos tonéis de vinho, mas que embriague os homens e os transforme de tal
forma que não se reconheçam nem nos espelhos, nem nos seus atos vis.
Quero
seguir na estrada do sem fim, coroado duma graça e que a piedade seja como uma
sequoia milenar plantada no solo do meu coração.
Quero
carneiros solenizados, eternizados, compondo suaves cenas, pastando os ramos da
tranquilidade.
Quero
as cores dos mais ternos, delicados e tenros amores, e que eles venham a mim,
batam às minhas portas em versos, melodias e doces harmonias.
Quero
os limites desse corpo de desejos estendidos até às raias do prazer. Ser e
estar com a cabeça nos céus e os pés plantados no terreno de toda fertilidade,
duma imensa criatividade.
Quero
encher o livro com tanta sabedoria, até que ele transborde de suas páginas um
verdadeiro e admirável mundo novo, não o de Huxley, mas algo maravilhoso, não-ficcional,
uma obra com grandes possibilidades do vir-a-ser, possibilidades do belo, do
ético e do real.
Quero
os sagrados números falando comigo e me divertindo enquanto enchem os meus
bolsos das mais preciosas alegrias.
Quero
dialogar com os sábios, saber dos anjos os propósitos deles, a fim de intentar
ajudá-los, até que eu mesmo tome o rumo das estrelas nas galáxias mais
distantes e mais belas.
Quero
os melhores amigos, entranhados no peito, de um jeito que não possam sair até o
apagar de nossos olhos mortais.
Pai,
eu te peço esses presentes todos, com ousadia, com pura loucura, fantasia,
nesse dia dos filhos da liberdade.
E
quanto ao demais, eu só posso dizer que não quero mais nada. Assim, regarei
minhas rosas e plantarei os meus lírios nesses vales enlouquecidos de tantas
esperanças.
Ismael Machado
(Do livro "Folhas de março", 2a. Edição, comemorativa pelos 20 anos da 1a. Edição, Alfa Editora, 2026, página 88, no prelo).
Aos homens e mulheres de boa vontade
Defronte está o mar imenso, olho para dentro de mim e vejo águas, marés, altas, baixas. Sigo aprendendo a conviver comigo, aprendizado, às vezes, difícil, e me incomodo muito, quase me desgasto em face dum desconforto, principalmente quando a solidão, pedregosa solidão, bate insistente com suas ondas revoltas.
Tento expulsá-la, é difícil quando se sente só, acompanhado pode ser mais fácil disfarçar, camuflar a solidão. Olho para o verde-mar-esmeralda e tenho esperanças num relance, num instante, desse olhar.
Não tenho pretensão para a perfeição, desisto, melhor viver e aceitar os erros, pois de muitos somos constituídos. Quero um porto seguro para ancorar o meu barquinho de papel, onde encontrá-lo? Há tantos caminhos, qual dentre tantos trilhar?
Solto as rédeas da persona, deixo a vida, imprecisa, conduzir esse leme de ansiedade. Felicidade parece quimera, portanto, quero mais quimeras, muitas. Ó mar salgado, tempera o corpo, alma, inteiros, porque ser insípido? Sequer uma olhada para trás, decerto nem mesmo a mulher de Ló repetiria o feito, nem eu tornar-me estátua pra o vento soprar, a água derreter, estátua nem de sal, nem insensível.
As crianças sorriem, brincam, nadam, nem sabem de coisa quanta, tanta. Um dia aprenderão, ou desaprenderão, por certo, porque aprendemos coisas, esquecemos outras e é humano esquecer, pra não enlouquecer. Ser saudável é o desejável, sem se supor normal. Sem tornado o mar é calmaria, doce ventre de Maria. Ora Senhor, ajuda-nos, sem demora, tenho pressa, ansiedade desde o princípio quer chegar ao fim, e teimo em ir devagar, devagarzinho, pois assim é que se chega, feito formiga, feito tartaruga, ao largo caminho do mundo.
Quisera fazer uma aliança com o mar eterno, cujas ondas passarão e para sempre ficarão, aliança mesclada de ouro e amor, com a natureza, humana e divina.
A linguagem do silêncio parece ter maior força de expressão que as muitas línguas que possamos falar.
Na quietude, que não é propriamente paz, o espírito discorre sobre vidas e fatos inusitados, sequer concebidos pela mente consciente, e por dentro e por fora vagueia essa fala interior, em que o próprio ser se trai analisando suas realidades conscientes e inconscientes. É, então, travada uma imensa batalha, sem palavras. E a mente, recorrente, atemporal, vai buscar na dramaturgia shakespeareana suas possibilidades, a fim de juntos repetirem velha questão vital: “To be or not to be?”
Sem respostas prossegue o silêncio, devorador, devastador, com suas injunções, iminente, presto a lançar mão d’alguma elocução letal, para dizer-nos uma porção daquelas realidades que preferimos guardadas, escondidas ou camufladas.
Acusa-se, e ainda mesmo como réu, se condena, sem ao menos ter em conta que não se foi oficiado para tal. Esse silêncio é o eu, pequeno ou adulto, não importa, um eu despido frente ao espelho, ele mesmo, como é
Quisera rir, o riso travou, chorar, gemido não tem, então busca-se ambos, rir e chorar num só tempo, em que a morte e a vida estão co’as mão dadas, dando-se a impressão de tamanha perplexidade...
E o silêncio, por vezes, companheiro perfeito da solidão, cavalga terras desconhecidas dos meros humanos, campos interiores muito vastos, nunca d’antes palmilhados. Onde vai dar tal cavalgada? O que mais nos dirá, em versos, esse tudo e aparente nada?...
Psiu!... Escuta. Será diálogo ou discussão a próxima fala?