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O autor de O Ateneu, um clássico
sábado, 19 de setembro de 2026
A ingratidão
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Folhas brasileiras
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Quatro estações.numa tela
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
A liberdade de Gimel, algo genial - Partes I e II
Se eu fosse Aladdin eu faria bem assim, três petições ao gênio da lâmpada e a quantos males nesse mundo eu poria um fim.
Diante do gênio, envolto em névoas e palmilhando o nada, a lâmpada mágica ainda entreaberta e eu boquiaberto, estupefacto ante o homem imenso saído de um pequeno orifício, dum recipiente usado para o combustível do fogo imanente, o que se apresentava pelo simples fato de eu haver esfregado aquela velha lamparina árabe com as minhas débeis mãos, ainda trementes e nem sei dizer quantos pensamentos na mente correntes. Lembro-me, vagamente, ter lhe perguntado o nome simplesmente, ao que me respondeu chamar-se Gimel, tal a terceira letra do alfabeto hebraico, alfabeto crente num só Deus vivente.
Antes d'eu balbuciar palavra, eis já estava o grande gênio, que por três pedidos me perguntava. E sem deixar-me procrastinar ele me apressava dizendo da brevidade que o tempo na ampulheta passava. Instrumento aquele trazido por ele em sua mão esquerda, onde se via em cores diversas, três contadores de grãos de areia caindo incessantes, enquanto meu pensamento era galopante. Para não lhe causar rubores de curiosidades direi das cores, sem os comentários de seus significados. Eram justamente, na tal ampulheta: o violeta, o índigo e o azul, e nessa ordem, em sincronicidade, do mais alto ao mais baixo desciam em três porções os grãos contados, marcados nesses precisos tons. Ali, naquele instante passante, eu vi a brevidade de tudo, quando Gimel levantou a mão, do mesmo lado do coração, o mais alto que pôde e, também alto bradou palavras e com voz severa me ordenou urgentemente fizesse os três pedidos, os quais eu tão-somente expressei, posto que já os trazia ao longo caminho, muito desejadamente.
O primeiro pedido eu lhe disse temente de que não o cumprisse, pois, justo ele, um ser tão estranho, seria o meu suposto atendente? Mas eu apressadamente me fiz requerente ao dizer: retire a traição do humano coração, que o Senhor refaça esse órgão, sem mais querelas, nesse aspecto eu quero ver o homem novamente bom.
Fez-se um silêncio sepulcral, pareceu-me um instante letal, contei três segundos de um modo eternal, porém tudo me pareceu igual. Tal era o meu anseio de não mais rever as faces da traição, aquela cara lívida, amarela, descabida, coroada de mentiras, já franzida, com acumuladas rugas nos olhos, querendo escondê-los da verdade, uma cara disfarçada, camuflada, intentando ocultar a desnuda realidade.
Parte II
De fato, após a ousada petição, não vi nada acontecer, apenas ouvi o gênio me dizer: - Faça o seu segundo pedido. E eu, pressuroso lhe respondi que não o faria sem o primeiro deles me atender. Então, ele me disse: - Está feito!
Pensei... objetei... mas desapercebido de algo acontecido, por isso, continuei...
Pois bem, sem delongas, fiz-lhe o segundo pedido, sequer pestanejei, e com potente voz poética o desejo bradei, enquanto os grãos dum azul-índigo caíam na ampulheta e um arrepio visitava o meu umbigo, a minha barriga estava alaranjada de medos. Embora o temor e o tremor, as palavras saíram ousadas, quão corajosas me pareceram advindas d'um'outra pessoa que não eu ali, algo ainda tonto pelos odores de óleos, em fumaças exalados da lamparina. Somente disse, seja também o fim da mentira, ela, a irmã dileta da traição.
Gimel retrucou-me, atrevido: — Por que me pede a beirada dos impossíveis? E acrescentou arguindo: — Acaso você quer aniquilar com o gênero humano? O homem e a mentira são irmãos do tempo, quase siameses, sem a mentira, parenta em primeiro grau da hipocrisia, essa humanidade, como ela é, sequer existiria. Não lembra de Adão? Olvidou-se de Eva? Eu, Gimel, estava entre arbustos no Éden quando os vi mentir por vez primeira. Depois, vi Caim matar Abel e mentir, vi guerras e mortes por elas forjadas. Meu avô um dia me chamou e pausadamente falou, muito cedo ele me ensinou, que aquele que rouba, mente, e eu não deveria roubar os pedidos que me fossem feitos, nem mentir sobre a sua concretização. Imagine você, o ladrão estará roubado com o ato de mentir dele retirado, pois, sem a mentira, todo roubo será confessado. Isso é um terrível laço para todo humano, será desse gênero o seu fracasso. Temo, ao separar o homem e a mentira, pois eu posso para sempre mutilar esse ser, irremediavelmente, como quem busca separar duas laudas de papel, coladas pelo grude de milênios. Mas, se me pede, se de fato quer, eu agora o faço!
Senti um estremecimento por dentro, um calafrio nas costas, senti-me diverso do que tinha sempre sido, algo de mim pareceu ter ido, não sei, nem tanta conta naquele momento eu dei. As palavras me soaram mais honestas na petição seguinte, era a derradeira, não poderia titubear, de modo algum falhar, mas o que pedir, dizer? O que eternamente, com poder, transformar?... Tive apenas três segundos para pensar e o gênio me instar a fazer o pedido certeiro, porque depois ele estaria para sempre liberto e faceiro. Então, como não teria outra ocasião, pedi a Gimel para acabar, banir de todo peito, todo e qualquer preconceito, qualquer discriminação, fosse de raça, cor, gênero, religião, condição social, cultural, étnica, linguística e etcetera.
O gênio nada me respondeu, piscou com o olho direito, acenou com a cabeça como quem diz sim e o último pedido, ele, bem depressa, me atendeu.
Num instante, num relance, ele sumiu e eu fiquei só, com a lâmpada ainda aberta e um certo vazio em mim. Eu me sentia estranho, qual um passarinho novinho jogado fora do seu ninho. Será que o gênio, de fato, atendeu os pedidos meus? Conjecturei...
Continua na Parte III
Poeta e escritor
A liberdade de Gimel, algo genial - Parte III
Saí
pela cidade, perambulante, fui ao Banco ver gente, sacar algum dinheiro e me
veio o banqueiro, um homem vistoso, bem apessoado, com palavras difíceis,
dizendo-me a mais pura verdade, e ele foi logo sendo honesto e me devolvendo os
juros indigestos pela metade, e eu de surpreso, levemente rude, naquilo que os
olhos constatavam, crer nele, eu confesso que não pude. Eu, do que o homem me
deu, quis lhe retornar um bocado, porque já estava acostumado a ser tantas
vezes usurpado. Porém, ele foi mesmo sincero e eu apenas lhe disse, Amém!
Então,
veio a mim Madalena, casada, pelo marido bem-amada, com três filhos criados,
graúdos, há quantas bodas esposada, mas o marido por ela traído, pobre homem,
mal sabia de quanto ocorrido. Entretanto, ela se disse arrependida, assim, de
mim, reduzi-me a dizer-lhe que mudasse de vida, ao que ela m’o prometeu
doravante deitar-se unicamente com o seu esposo sobre o leito da lealdade,
jurou comer na panela cotidiana da fidelidade, arroz e feijão, e viver na mais
pura simplicidade. Porque não sou tolo, desconfiado, de todo não cri, argui por
dentro, será que eu poderia dar a ela um crédito, em realidade, sem forçar
qualquer amizade? Lembrei-me naquela hora da primeira petição feita ao gênio
com tamanha sinceridade, acaso não era aquela minha mais desejada intenção? Vi
uma névoa sobre a cabeça da mulher e não entendi… parecia mais reluzente que o
pó na ampulheta presente.
Também,
encontrei-me com um filho que havia mentido, roubado e traído o próprio pai,
devido à sua luxúria, deixando aquele que era mais do que o seu amigo em uma
completa penúria. O seu nome era Dimas, um cidadão romano, nascido na mesma
cidade que hoje circunda o Vaticano, e ele se dizia, igual à tal mulher,
arrependido, porém, gostaria de, para aliviar o seu tormento, com atitudes,
demonstrar o seu vero arrependimento. Estava em rubras cores deveras
envergonhado, e não queria sequer mencionar os atos de seu tenebroso passado.
Em
seguida, vi um homem negro, cultura afrodescendente, notadamente gay, origem nordestina, na vida contava
tantos papéis, estava estirado sobre cordéis, pelas vestes, presumidamente
pobre, ali no meio da rua, por quantas pechas caído, ou, talvez, até por algum
atentado acometido, contudo, ele justamente ser socorrido por um homem branco,
loiro, olhos azuis-celestes, bem-vestido, sabidamente rico, só pelo carro
estacionado ao lado, provavelmente de origem europeia, bem-nascido, bem-criado,
disseram-me tratar-se de um fulano de tal, super votado para o edílico
municipal. Era uma visão quase celestial, surreal, eu não podia crer naquilo
não, estava surpreendido, estarrecido. Porém, ainda lembrei da lâmpada mágica e
do derradeiro pedido.
Haviam
sido três petições, englobando quatro graves problemas para uma cabal solução,
nessa ordem: a traição, a mentira, o roubo e a discriminação. Três em quatro o
feito, na prova da soma dá sete, o que estava perfeito.
Depois, segundos, a consciência eu recobrei, acordei algo assustado, escutei ao longe, três sinos franciscanos repicavam na torre ao alto na catedral, virei-me na cama, sem pensar levantei, olhei ao redor, o calendário no criado-mudo marcava o dia quatro de julho, avistei o despertador, eram sete horas e quatro minutos, ainda lembrei-me do sonho, do gênio, da lâmpada dourada e dos pedidos feitos, apressadamente anotei algumas palavras no meu caderno de apontamentos, dirigi-me ao banheiro e rapidamente eu me lavei, aprontei-me, e o roteiro diário do trabalho tomei. Quando lá cheguei bati o registro eletrônico de entrada, ergui os olhos para o relógio de paredes e vi que eram oito horas em ponto, hora cravada, hora do eito, igual àquela marcada no relógio preso no meu pulso direito. Também, na parede, aquele muro branco, ao lado do relógio, estava uma cruz e acima de ambos havia um conselho que eu sempre lia, o qual em poucas palavras dizia:
“—Jamais se esqueça daquelas coisas que lhe fazem sorrir.”…
Poeta e escritor
domingo, 13 de setembro de 2026
sábado, 12 de setembro de 2026
Mais de 450.000 visualizações
Bem feliz ao completar mais de 450.000 acessos na página do meu Blogue do Lado Avesso.
Agradeço imensamente a você leitor(a), o(a) destinatário(a) dessas postagens, desse trabalho cuidadoso e semanal.
Estatísticas do Blogue:
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O Blogue foi criado com um propósito cultural e mantém o seu foco desde o início. Você pode participar também, basta clicar no botão azul Seguir, do lado esquerdo da tela.
Um grande abraço e tudo de bom pra você!
Ismael Machado
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Vem aí a 2a. edição do livro "Folhas de março", uma edição comemorativa pelos 20 anos do 1o. livro
Vem aí a 2a. Edição (Revisada e Atualizada, incluindo novos textos) do meu 1o. livro: "Folhas de março", com prefácio do professor Paulo Nolasco (1a. edição) e comentários de Sylvia Cesco (2a. edição). O livro está no prelo (fase de impressão).
Trata-se de uma edição comemorativa pelos 20 anos do lançamento desse meu primeiro livro.
A pré-venda está disponível com o autor.
Grato, abraço, Ismael Machado.
terça-feira, 8 de setembro de 2026
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
A idade em que o tempo senta à mesa
Existe uma fase da vida em que o espelho começa a nos tratar com uma sinceridade quase ofensiva.
Os cabelos debandam discretamente. Os joelhos passam a emitir boletins sonoros. A memória, às vezes, resolve brincar de esconde-esconde justamente com o nome daquela pessoa que acabamos de encontrar no supermercado.
E há também o fenômeno m³ais cruel de todos: levantar da cadeira emitindo um “opa!” involuntário… como se a coluna precisasse de autorização verbal para funcionar.
Mas talvez exista uma beleza secreta nisso tudo.
Porque, enquanto o corpo vai lentamente negociando limites com o tempo, a alma — curiosamente — começa a ficar maior.
Mais generosa. Mais paciente. Mais humana.
Chega uma idade em que já não precisamos vencer discussões inúteis. Nem provar inteligência. Nem disputar importância. A vida finalmente nos ensina que certos troféus pesam mais do que valem.
Então começamos a trocar pressa por presença.
E isso muda tudo.
O café deixa de ser apenas café. Vira cerimônia. Vira encontro. Vira desculpa para conversar sem relógio.
As amizades antigas ganham um brilho raro.
Porque sobreviveram às décadas, aos desencontros, às mudanças, às perdas, às teimosias e até às opiniões políticas — milagre estatisticamente improvável para homens acima dos setenta… especialmente em grupos de WhatsApp.
E o amor… Ah, o amor também muda.
Já não precisa incendiar o mundo. Basta aquecer o coração.
Às vezes, ele chega na forma de uma mensagem simples: “-Você está bem?”
E pronto. Aquilo ilumina o dia inteiro.
Descobrimos também que aventura, na maturidade, ganhou novos significados.
Dormir a noite inteira sem acordar duas vezes para ir ao banheiro virou quase uma experiência transcendental. Encontrar um exame médico com todos os índices normais provoca emoção semelhante à conquista de uma Copa do Mundo. E viajar sem esquecer os remédios já pode ser considerado um ato de ousadia internacional.
Mas existe algo profundamente épico em continuar vivendo com ternura apesar de tudo.
Apesar das ausências.
Apesar das despedidas.
Apesar dos amigos que partiram cedo demais e deixaram cadeiras vazias em nossas mesas e silêncios difíceis de explicar.
Ainda assim… continuamos marcando encontros.
Planejando viagens. Rindo das mesmas histórias.
Inventando motivos para celebrar aniversários.
Plantando ipês brancos em algum canto da memória.
Talvez seja isso que sustenta o mundo sem que a gente perceba: homens e mulheres comuns insistindo delicadamente em continuar amando a vida.
Porque envelhecer não é desaparecer.
É diminuir o barulho externo para escutar melhor o essencial.
É descobrir que felicidade talvez nunca tenha sido uma linha de chegada. Era apenas aquela conversa boa depois do almoço… o telefonema inesperado… o abraço demorado… o amigo que ainda lembra do seu apelido de juventude… e a mesa onde alguém sempre guarda um lugar para você.
No fim das contas, talvez a grande vitória da maturidade seja esta: aprender que a vida não precisa mais correr.
Agora ela pode apenas… sentar conosco à mesa.
Fabrício Carpinejar
domingo, 6 de setembro de 2026
sábado, 5 de setembro de 2026
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Meu pequeno hino, uma nota poética antiga
Ver o pôr do sol ali em Jeri é iluminar-se de horizontes. É um festival, um arrebol de cores, entardecendo dentro de si.
Em Jericoacoara parei, sentei e contemplei, um espetáculo digno dos mais efusivos aplausos. Pergunto, qual casa teatral poderá apresentar por tanto tempo uma peça assim tão magistral e sempre diversa, sem igual?!... Belo e formoso, resplandece majestoso e refulgente do Oriente ao Ocidente. Seus raios nos alcançam com dádivas, com mãos potentes.
Majestosamente se põe o Astro Rei. E eu bem sei que a vida e os ventos, com ele, bem ao longe me levarão, mais além, ó fonte da vida terrena e dos insondáveis mistérios da morte.
Bendiga, ó minh'alma, ao seu Criador, e tudo o que há na Terra e em mim, a Ele bendiga pelas suas obras sem fim.
Com as minhas faces, com a cara assim iluminada, alaranjada, vejo o pôr mais lindo do Sol, justo enquanto ouço o canto do Siará, tupi-guarani, em Jericoacoara. Em certo sentido somos todos filhos e filhas do Sol, pois dele emanam a luz e a vida pulsante, vibrante. Ele acende sua imensa chama e incendeia as piras, os altares, os lugares, para velar por nós mortais. Nesse lugar assim lindo eu quero estar e, por anos a fio, ali ficar.
Saí da toca, junto de tantas tartarugas marinhas, somos seres navegadores de mares, das profundezas da vida. Quando ele, o Sol, se levanta, desde milênios de milênios, então, vai abençoando a Terra, os demais Planetas e todos os seres vivos ou inanimados.
Nessas linhas segue inscrita uma nota poética antiga, andina e egípcia, uma espécie de códice ou hieroglifo, que em tempos modernos destaco, aqui coloco o meu grifo.
Logo em seguida ao poente surgirá nos céus a Lua em sua fase crescente. Ela virá dar forças ao surgimento dos sonhos do povo, das gentes. Lua de Prata e jangada dourada anseiam por trilhas de Sol, por suas belezas e riquezas. Vão no compasso das tartarugas, lentamente, segundo após segundo, qual o Sol se pondo, vão todos vagarosamente, preguiçosamente, melancolicamente. Lua, Sol e jangadeiro seguem a solidão das estrelas.
Aqueles foram dias feitos só de Sol, lá para onde fui e não queria voltar, um lugar ao Leste. Pois, me parece que sempre será melhor seguir por roteiros de Sol e de mar.
Com suas cores e incontáveis pores, dia após dia, um espetáculo antimonotomia com tamanha policromia.
Sem a sua luz, sem o seu calor, a vida fenece, mas consigo ela floresce e se move, cresce. Seus mistérios são revelados aos homens em seu curso do Leste ao Oeste. Em aproximadas doze horas geométricas, sob o signo dos números, primeiro o que princípia a vertical e depois o que se dobra entre o círculo e a reta, vê-se desde o seu nascer, percorrer os caminhos dos seres vivos, e ao Oeste se deitar, assim, consigo, o dia vai se findar.
Há quantos becos na Terra, algum deles quer ser o jardim de uma vida inteira, outros inominados. Mas para o Sol não há quaisquer becos, quando ele se levanta ao Leste as rotas se tornam fecundas.
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
O que nunca foi, de Sidnéia Miato
Três anos de idas e vindas,
Mas nenhum registro.
Não temos uma foto,
Nunca tivemos um date,
Nunca dormimos juntos,
Nunca saímos de mãos dadas,
Nunca fomos ao cinema,
Nunca ganhei um ursinho,
Nunca ganhei flores.
Há as memórias, minhas e tuas:
As tuas, escondeste de mim,
Mas o tempo, o retorno e o seu corpo
Contam-me!
As minhas, eram vivas e apaixonadas,
Eram, porque agora elas estão em ato
Você disse que eu deveria me acostumar
Com o seu jeito pingue-pongue,
Apesar de me adorar e me achar foda!
Você me deixou ir embora.
Sidnéia Miato
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
Supostas prisões, uma ode à liberdade
Há prisões neste mundo em doenças
que prendem os moribundos
aos seus leitos de dores, dos quais a morte vem, depois, libertar.
Há prisões em corpos esculturais, presos às suas paixões e a determinados padrões e em prazeres do sexo, do poder e da fama.
Há prisões não supostas em vícios vários, a princípio prazerosos, mas em formato de algemas que fazem gemer depois.
Há prisões que badalam os seus sinos, chamando os inocentes ou pobres pecadores às suas celas de doutrinas, para as quais os incautos
prisioneiros caminham ainda cheios de esperanças.
Há prisões que prendem os seus amores em reais horrores, e machucam por dentro e fora.
Há prisões em países com parcos recursos para a educação, capazes de aprisionarem gerações e gerações.
Há prisões em si mesmo, as quais prendem mais do que as grades de metais das cadeias, donde é difícil se soltar.
Necessitam psicólogos, psiquiatras, quais carcereiros, para ajudar na soltura de traumas e tramas das celas escuras do inconsciente.
Há prisões em palácios com as suas cercas elétricas, portões eletrônicos e altos muros de medo.
Há prisões nas sarjetas e em maltrapilhos famintos de igualdade e fraternidade.
Há prisões que prendem os pais e os filhos em distâncias não transpostas.
Há prisões supostas ou não, mas o ser em si anseia pela vida e pela liberdade.
Ismael Machado,
Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil.
Duas notas:
1) Poema objeto de estudo no PROFLETRAS (Mestrado Profissional em Letras em Rede Nacional), Disciplina de Leitura do Texto Literário, da UEMS, no dia 17.08.26.
2) No Dia da Revolução dos Cravos, 25.04.21, uma excelente notícia, meu poema "Supostas prisões, versos livres", publicado em Portugal, na antologia Liberdade, pelo Grupo Editorial Atlântico/Chiado Editora.

























