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domingo, 24 de maio de 2026

Sobre preservar o que vale mais que o dinheiro

Jacqueline Kennedy Onassis


Em 1979, Jacqueline Kennedy Onassis pagou 1,1 milhão de dólares por um trecho de costa varrida pelos ventos em Martha’s Vineyard que a maioria dos compradores já tinha rejeitado.

Não havia nenhuma mansão imponente sobre as falésias. Nenhum jardim perfeitamente cuidado. Apenas uma antiga fazenda de ovelhas, uma cabana simples de caça e hectares de campos salgados onde o vento do Atlântico dobrava a relva até quase a tocar o chão. Para os investidores, era um problema. Para Jackie, era um refúgio.

Ela não nivelou a terra nem a dividiu em lotes. Chamou a sua amiga mais próxima, a designer de jardins Rachel “Bunny” Mellon, para moldar o terreno com leveza, como se sempre tivesse sido assim. Encomendou ao arquiteto Hugh Newell Jacobsen uma casa que não dominasse a paisagem, mas que se acomodasse nela — baixa, em madeira de cedro, sensível à luz e ao vento.

Ela andava de bicicleta por trilhos de areia em direção ao farol. Estudava as marés para correr na praia quando a areia estava firme e o oceano em repouso. Aprendeu os ritmos da lagoa de Menemsha e observava a garça-azul levantar voo dos canaviais ao entardecer. Leu sobre a história do povo Wampanoag, inscrita nas falésias, e carregou essas memórias com respeito silencioso. Chamava aquele lugar de o mais belo do mundo — não apenas pela paisagem, mas pelo sentimento de liberdade, de algo intacto e essencial.

Ela ensinou os filhos a vê-lo assim também. Não como propriedade. Não como privilégio. Mas como responsabilidade.

Quando Jackie morreu em 1994, a terra passou para a filha, Caroline Kennedy, e para o filho, John F. Kennedy Jr. Após a morte de John num acidente de avião em 1999, Caroline e o marido tornaram-se os únicos guardiões daquele lugar. Criaram os filhos ali, durante verões moldados pela maré e pelo vento.

Colhiam lagostas na lagoa de Menemsha. Plantavam hortas e levavam os seus produtos à feira agrícola local — sem nunca ganhar um prémio. Caminhavam diariamente pela praia, e cada um voltava com uma única concha — a melhor que conseguia encontrar — formando uma coleção silenciosa em casa.

Também abriram o espaço a cientistas. Biólogos mapearam ecossistemas costeiros raros. Botânicos estudaram orquídeas frágeis. Ornitólogos acompanharam aves protegidas a atravessar as correntes de ar sobre as dunas. A terra, antes vista como comum, revelou-se extraordinária — um refúgio para espécies que não sobreviveriam se fossem deslocadas.

Em 2019, chegou o momento decisivo. A propriedade estava avaliada em 65 milhões de dólares. Caroline já era mais velha. Os filhos já tinham as suas próprias vidas. A manutenção daquele nível de responsabilidade tornava-se cada vez mais difícil.

O caminho mais fácil seria vender ao maior licitante. Um comprador privado dividiria os 350 acres em propriedades exclusivas, com portões fechados e acessos restritos. As paisagens continuariam verdes, mas silenciosamente inacessíveis. Os ecossistemas poderiam sobreviver — ou desaparecer sem testemunhas.

Mas Caroline escreveu à comunidade da ilha. Citou o poema Ítaca, de C. P. Cavafy, que a mãe admirava: a ideia de que o destino importa menos do que o caminho percorrido até ele. Disse que a mãe lhes tinha ensinado que a vida é feita de novas jornadas, e que esperava que outra família valorizasse Red Gate Farm como eles valorizaram.

Depois, fez algo inesperado: vendeu a propriedade não a um bilionário, mas a duas organizações de conservação, por 37 milhões de dólares — muito abaixo do valor de mercado. Mais de 336 acres foram protegidos de forma permanente.

Hoje, o local é conhecido como Squibnocket Pond Reservation. Qualquer pessoa pode caminhar pelas praias voltadas para o Atlântico. Qualquer pessoa pode atravessar as dunas onde o vento parece mover o próprio chão. Qualquer pessoa pode estar naquele mesmo espaço onde Jacqueline Kennedy um dia entendeu que certos lugares não pertencem a uma só família, por mais amor que exista neles.

Não foi um gesto repentino de generosidade. Foi o resultado de uma decisão iniciada décadas antes: escolher preservar em vez de possuir. E continuada por uma filha que, quando chegou o momento, não fechou o lugar — abriu-o.

O lugar mais bonito do mundo, dizia Jackie.


Agora, pertence a todos os que sabem caminhar com cuidado sobre ele.

Pâgina do Facebook: "Sobre Literatura?"



segunda-feira, 11 de maio de 2026

Ricos de que mesmo?



Há muitos ricos contaminados, endiabrados com toda sorte de maldades, pobres de toda bondade. I am so sorry!

Pois, há aqueles empobrecidos pelo dinheiro, meros miseráveis. Habitam em castelos, porém, são uma favela de sentimentos.

Justamente aquele homem em Vaduz apareceu-me com os olhos esbugalhados da maldade, trazia os dentes retorcidos de rangê-los e os sentimentos distantes da essência, pois o vil metal corrompe mais que a ferrugem.

São esses os pobres sofredores, de outra sorte, iguais aos seus oprimidos.

Será que isso vale a pena?
Seria essa alma assim tão pequena?

Ismael Machado

domingo, 10 de maio de 2026

Alpes



Nos Alpes, as cobertas de neve aquecem 
as montanhas do gelo humano.

Ismael Machado 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

A inveja existe?


Onde a felicidade está a inveja pode fazer ronda e desejar o seu fuzilamento. 

Cuidado. Mas não te imobilizes, o antídoto é seguir fazendo o bem. 

A Luz anula as trevas.

Ismael Machado 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Jewishes or other peoples

Jewish Museum, Berlin.

Em pleno século XX, eram os anos de 1939 a 1945, esse terrivel e interminável tempo, e eu ali ainda vi o ódio matar milhões e milhões de humanos (com carne, dor, sangue e sentimento), eu vi novamente Ramá chorando por seus filhos mortos em um labirinto de horrores, onde havia muitos Minotauros. Eu vi o verbo clamando por seus pobres filhos esquálidos, famintos, doentes, ignorantes de toda sorte.


Homens, mulheres, crianças, inocentes foram mortos num jardim entre as regadas e crescidas flores da crueldade.


Era Herodes ressuscitado em carne e osso, vivo em outros corpos da vildade, sem qualquer piedade. O Nazifascismo persiste no século XXI, tempo em que os algarismos romanos quase nem se usam mais.


A Terra, às vezes, me parece apenas um gueto, um lugar onde os holocaustos se concentram em incontáveis campos, eles se sucedem, em quaisquer tempos, entre as nações. Isso beira um tom de ironia. But the World, seriously, represents a place where oprimidos tantas vezes tomam as máscaras dos seus opressores, e eles as acham tão bonitas, lhes encaixam tão perfeitamente nas faces, que olvidam o seu lugar de origem, olvidam os seus pares oprimidos de outrora, de agora, e desde sempre.


Perdão, há uma confusão, o antissemitismo diverge do sionismo, na mesma proporção da distância que vai do oprimido ao opressor, pois eles estão equidistantes. Há medos inumeráveis de ambos os lados, mas amar Ramá, em todos os sentidos, lendo da direita pra esquerda, ou o inverso disso, repito, amar Ramá, lança fora todo o medo. Porque na etimologia do amor não há medo.


Os antigos filósofos gregos, inventores da democracia, revolvem-se em suas catacumbas, delas querem se levantar e corrigir o que, hodiernamente, entendem por democracia, hoje com suas falsas ideologias, fajutos e toscos modos de pensar o mundo.


Eu quero a Menorá, de ouro maciço, bem dentro de mim, com seus sete sagrados dons, sua Luz espargindo os seus raios, sem um fim. Nessa Shekinah cantarei os cânticos duma sabedoria indescritível aos meros mortais. Ali, em meu peito, novamente crescerão os ramos da Árvore da Vida, sob suas sombras verei outros rebentos sorridentes.


O que eu vejo é infinitamente melhor do que a lente da minha câmera. Com os meus óculos de poeta eu posso reenxergar a realidade míope.


Ismael Machado

quarta-feira, 29 de abril de 2026

500 anos da virgula

Muito boa a campanha da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), por ocasião dos seus 100 anos de fundação. A campanha versou sobre os mais de 500 anos do uso da vírgula na Lingua Portuguesa. 


*A virgula pode ser uma pausa, ou nao. 

Não, espere.

Não espere.


*Ela pode sumir com seu dinheiro:

R$ 23,4.

R$ 2,34.


*Pode criar heróis:

Isso só, ele resolve! 

Isso, só ele resolve! 


*Ela pode ser a solução:

Vamos perder, nada foi resolvido! 

Vamos perder nada, foi resolvido! 


*A vírgula muda uma opinião:

Não queremos saber! 

Não, queremos saber! 


*A vírgula pode condenar ou salvar:

Não tenha clemência!

Não, tenha clemência!


*Uma vírgula muda tudo!


ABI: 100 anos trabalhando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.


Considerações adicionais: 

*Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andsria de quatro à sua procura.


* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de "mulher".


*Se você for homem, colocou a vírgula depois de "tem".


😂😂😂😃


*Moral da história:

A vida pode ser interpretada e vivida de diversas maneiras. Nós é que fazemos a pontuação!


*Pontue sua vida com o que realmente importa.

Isso faz toda a diferença!

segunda-feira, 13 de abril de 2026

De volta ao mar




Quero sempre voltar ao mar, e ficar, e nele fluir.

Quero por o meu corpo salgado das mais verdes ondas, alegres fantasias.

Quero a completude do número nove e de suas provas, ele e eu, de cabeça erguida, com os pés plantados na terra.

A face oculta da  Lua me quer revelar verdades dessa pobre humanidade, com suas crateras de medos e profundas decepções. 


Ismael Machado 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Onde se bebe o brilho das estrelas


Família, por vezes, é quase toda feita de afeto, onde as afinidades e as divergências tentam conversar, estabelecer um diálogo, convergir em naturais incongruências.

Parentela não, ela é mero laço consanguíneo e, às vezes, aprisiona os pobres entes sob o mesmo teto, sem outra alternativa, sem afeto.

Já família é abraço, companhia, dialogicidade, busca de encontros,
alegrias, em quaisquer tempos ou distâncias. Família tem um quê de
fidelidade, respeito e lealdade. Aliás, família tem a força da luz que rompe a barreira do tempo, ela vai do choro do nascimento, perpassa as fases da
vida e adentra as lágrimas do sepulcro. Família é aquela parte que vai além da vida, em visitas tumulares, décadas após o sepultamento, porque
família é memória, jamais esquecimento, é saudade, lembrança que não se
apaga, não se acaba, um sentimento que apenas cresce, sem um fim.

Família é o cultivo cuidadoso da amizade, quando juntos se gera e
compartilha a felicidade. Espaço para desfazimento das discórdias, de suas transmutações em outras possibilidades.

Parentela é distância, às vezes, indiferença, e o sangue não flui por iguais caminhos venosos, sequer pelos mesmos ideais, os quais são díspares, criam arrelias, confusões arteriais, altas pressões, que nem os remédios dão conta depois.

Bem sei, família é lar, aconchego para onde se quer voltar, estar,
permanecer, jamais dela se quer sair, fugir. Porque isso já seria parentela. 

É que família contém toda ela a circunferência do amor, em seus diâmetros, desafios.

Somente a família serve delícias culinárias, cuidadosamente, amorosamente
preparadas para almoços que alongam as tardes de domingo, ou para jantares intermináveis, inesquecíveis, donde os entes saem felizes, inebriados.

Espaço onde, na infância,  se bebe o brilho das estrelas, em noites de
sonhos e ternuras, no colo do pai ou da mãe, quando os olhos enxergam e fazem pedidos cadentes. Onde se come o pão feito do sol do acalento de incontáveis dias.

Às vezes, família quer parecer parentela, mas depois cai em si e pede perdão pelo equívoco daquilo que efetivamente não é, e não desejaria ser
jamais.

Parente, infelizmente, quantas vezes atormenta a gente, parente pode ser provação, com os verbos conjugados no tempo do presente do indicativo de que está sendo inoportuno.

Cuidado, parente pode ser esse animal aparentemente domesticado, algo inocente, que assim, algo sorrateiramente, inesperadamente, morde a gente.

Ismael Machado
Escritor e poeta

terça-feira, 24 de março de 2026

Eu só peço a Deus, com Mercedes Sosa e Beth Carvalho



Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o que eu queria

Eu só peço a Deus
Que a injustiça não me seja indiferente
Pois não posso dar a outra face
Se já fui machucado brutalmente

Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Toda pobre inocência desta gente
É um monstro grande e pisa forte
Toda pobre inocência desta gente

Eu só peço a Deus
Que a mentira não me seja indiferente
Se um só traidor tem mais poder que um povo
Que este povo não esqueça facilmente

Eu só peço a Deus
Que o futuro não me seja indiferente
Sem ter que fugir desenganado
Pra viver uma cultura diferente

Solo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente

Muito obrigado Beth
Por haberme convidado para cantar para su público
En esta noche en Rio de Janeiro, obrigada a você
Um beijo Mercedes

Compositores: 
Leon Gieco e Raul Ellwanger

sábado, 21 de março de 2026

Hoje, 21.03, é o Dia Mundial da Poesia, mas pra mim, Dia da Poesia é todo dia!


Ah! Esses cordéis vão aos céus, escorrendo pelas minhas veias, eles ainda dirão dos dias colossais, dias insabidos aos meros mortais.


Sou só metáfora, mas um dia, encantado, 
inda viro neologismo.


Ismael Machado

sexta-feira, 20 de março de 2026

O ditador explícito, uma sátira ao fascismo

O ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un.

Não me admira que um(a) único(a) homem (ou mulher) queira ser ditador(a), ademais com todos os privilégios e desmandos intrínsecos ao termo (implícitos: o autoritarismo, a corrupção, a tortura, mortes,  exílios, perda das liberdades individuais democráticas, além da ilegalidade inerente às ditaduras).


O que me admira mesmo é que, apesar DE TUDO, milhares ainda queiram ser os vassalos dele(a).


Fernando Bandeira

quinta-feira, 19 de março de 2026

Um poema para méu amor…

Pedro Múcio interpretando seu texto.

Amor, perdoe-me pelos erros que cometi em nosso matrimônio.

Amor, desculpa por ter vindo aqui.

Amor, desculpa por ter que te deixar.

Amor, eu tenho medo… medo desse tempo tolstóiniano de guerras…. tenho medo destes meus inimigos, que por se verem em certas expectativas podem parecer diabos do inferno de Dante, mas que em outras perspectivas revelam vidas iguais as minhas — que provavelmente — estão por escrever cartas semelhantes a esta que estou aqui a escrever para vossa senhoria no mais preciso presente… 

eu tenho medo, minha flor embalsamada… medo de que crianças tenham memórias póstumas de seus pais... memórias que remontam a corpos desgraçados e violadas por gases e fogos que queimam a derme desde a sua concepção pura.

Medo, medo, medo, medo.

Medo de monstros trajados de ternos, que  ao longo de seus escritórios afastados da desgraça, brinquem com vidas inocentes e sublimes com seus sonhos fraternais e poéticos.

Tenho medo, meu amor… que esta seja a última vez que possa te chamar de amor… tenho medo de que nosso filho não possa ver seu progenitor prestar assistência a ele.

Tenho medo meu amor… de que eu jamais possa ver este corpo que exala concupiscência e voluptuosidade em seus bálsamos perfumados.
Estes olhos cheios de um fulgor belo como uma aurora boreal e uma tempestade de cima de um arranha-céu de Nova York.

Esta voz... que em seus mínimos tons soam como partituras criadas pelos maiores detentores da musicalidade neste planeta.

Esta boca rubra e bela como o sangue que atrai até Nosferatu — o vampiro — em seus momentos de reclusão.

Esse sorriso, que faria Louis Armstrong repetir seu fatídico e inexprimível refrão infinitas vezes. Esta alma que me concede forças nestes tempos de guerras destruidoras de lares e criadoras de cidades devastadas por cinzas de corpos e poesias…

Eu tenho medo, amor.

Pedro Múcio 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Listras bélicas



EU A vejo diametralmente
 oposta ao Tibete,
você é imperialista e bélica.

Ismael Machado 
(Do livro Folhas de Março, ArtBela, 2006)

sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Imoerador Dom Pedro II

O Imperador do Brasil, Dom Pedro II, em traje de corte, aos 39 anos, em 1865. Um dos personagens mais ilustres da história do Brasil, D. Pedro II permanece até os nossos dias como uma figura emblemática e ao mesmo tempo fascinante. 


Suas fotografias o apresentam como um homem sério, contemplando um ponto além do alcance das lentes do fotografo, geralmente imerso em algum pensamento do qual só ele e suas longas barbas conhecem o segredo. 


Essa imagem foi postumamente plasmada pela imprensa e pelos livros de história, que transformaram o segundo imperador do país numa espécie de ícone. Nem mesmo a República, com todo seu trabalho voltado para a desconstrução de nosso passado imperial, conseguiu derruba-lo de seu pedestal.


Aos 5 anos, Pedro de Alcântara tornou-se Imperador de Brasil. Devido à tenra idade, o governo foi entregue à três regentes e, posteriormente, para apenas um. Essa fase tumultuosa da história do Brasil, que vai da abdicação de D. Pedro I em 1831 até a proclamação da maioridade do príncipe, em 1840, aos 14 anos, ficou conhecido como período regencial. Nesse processo, o país foi palco de muitas revoltas de cunho separatista ou que pregavam o retorno do primeiro Pedro. 


Essa situação foi parcialmente resolvida com a ascensão do menino-imperador ao trono. Logo, uma preocupação tomou conta dos ministros: era preciso garantir a sucessão ao trono.


Em outras palavras, D. Pedro II precisava se casar, de preferência com uma noiva que pertencesse a uma das grandes casas dinásticas europeias, como os Bourbon ou os Habsburgo. Entretanto, havia um problema: “a família imperial não era rica, o Brasil era um país distante, exótico, sem importância”. Além disso, explica José Murilo de Carvalho, havia o precedente de D. Pedro I e seus escândalos extraconjugais. 


“As famílias reais europeias se perguntavam, naturalmente, se o filho não teria puxado ao pai em matéria de relacionamento” (2007, p. 51). Durante a infância, os instrutores do menino Pedro temiam que ele seguisse o mau exemplo do seu progenitor, educando-o de forma a se tornar o oposto dele.


Texto: Renato Drummond Tapioca Neto

Imagem: Fotografia de Reverter Henrique Klumb

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Baco, texto-poema de Raquel Naveira


O vinho é um símbolo milenar, presente em diversas culturas e religiões desde os rituais antigos de colheita e banquetes até o cristianismo.


Há o vinho da alegria, da plenitude da vida, sinal de festa de casamento ampliada noite adentro. Regada pelo melhor vinho. É amor nupcial, fecundo e jubiloso como nas Bodas de Caná. Esse vinho aponta para outro: o da Última Ceia, o sangue derramado, o sacrifício, o transbordamento de sentido.


Por outro lado, o vinho da Babilônia, do sistema do mundo, é duro e ambíguo. Todas as nações beberam desse vinho e se corromperam. Vinho cheio de fúria, de sedução, de poder, de riqueza e domínio. Quem bebe desse vinho fica entorpecido, fascinado, sem discernimento moral, confuso. É uma mistura adulterada com metanol. Veneno em taça de ouro. Barbárie travestida de progresso.


O deus Baco ou Dionísio, cultuado na Antiguidade greco-romana, era luz e vertigem no mesmo cálice. Deus do prazer, da fertilidade, do teatro. Impressionante o quadro “O Jovem Baco”, de Caravaggio (1571-1610), o pintor italiano que criou uma obra possante, naturalista, às vezes brutal. Caravaggio tinha personalidade inquieta, enfrentou várias vicissitudes, cometeu um homicídio, faleceu em circunstâncias obscuras na Toscana, aos 38 anos.


Foi genial, inovador, penetrou na realidade crua da condição humana. O seu jovem e pálido Baco, exposto num museu de Florença, é sensual, vulnerável, reclinado com uvas e folhas de videira nos cabelos. Toca ligeiramente o cordão do seu roupão frouxo e drapeado. Uma cesta de frutas apodrecidas sobre a mesa de pedra mostram que tudo é efêmero. Um jarro de vinho tinto. Com a mão esquerda nos oferece uma copa de vinho roxo. Há humor e ironia na sua face ruborizada. Transmite erotismo, fantasia e tentação.


Inspirada em Baco e nesse quadro dramático, escrevi o poema “Convite de Baco”:


Eu andava sozinho pelo vale

Quando descobri a uva e fiz dela o vinho,

Derramei-o pelo caminho

Pelo ninho de víboras das almas;

Seguiu-me um cortejo estranho


De homens vestidos de mulher,

De mulheres cobertas de pele,

De bodes tocando flautas;

Pelos campos e aldeias onde passamos,

Todos largaram seus labores

E vieram nos entoar louvores;


No palácio

Minhas bacantes enfurecidas

Mataram o rei a dentadas

E ungi de sangue o trono

E a boca do outono.


Do meu cântaro de vinho

Escorrem promessas de carinho,

De coragem,

De cura sem medida;

No meu cântaro de vinho

Borbulharam a loucura e o prazer


Desde as safras mais antigas;

Com meu cântaro de vinho

Serás um deus

E não mais um verme mesquinho;


Vem comigo,

A minha trilha é sem espinho,

Ontem descobri a uva e fiz dela o vinho.


Baudelaire (1821-1867), o poeta, ensaísta, fundador da tradição moderna em poesia, escreveu em seu livro “O Spleen de Paris”: “É preciso estar sempre embriagado. Tudo está nisso: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que quebra vossos ombros e vos inclina para a terra, é preciso embriagar-se sem trégua. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.” Sim, é preciso encontrar algo que nos arrebate, que tire o peso da nossa finitude, da banalidade de nossa existência. O escape do ambiente que nos causa indignação a cada dia.


Quem me vê com lábios trêmulos, com a aparência febril de quem tem o espírito atribulado e suplicante, pensa, certamente, que ando embriagada.


Raquel Naveira


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O corvo, de Edgar Allan Poe (tradução de Machado de Assis)


Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, cahindo de somno e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
 E disse estas palavras taes:
«É alguem que me bate à porta de mansinho;
«Há de ser isso e nada mais.»

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial
Dezembro;
Cada braza do lar sobre o chão reflectia

A sua ultima agonia.

Eu, ansioso pelo sol, buscava
Saccar d’aquelles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dôr esmagadora
      
D’estas saudades immortaes
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
 E que ninguem chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por elle padecido.
Enfim, por applacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de prompto, e: «Com effeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
«Que bate a estas horas taes.
«É visita que pede à minha porta entrada:
«Há de ser isso e nada mais.»

Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacillo e d’esta sorte
Fallo: «Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
«Me desculpeis tanta demora.
«Mas como eu, precisado de descanço,
«Já cochilava, e tão de manso e manso
«Batestes, não fui logo, prestemente,
 «Certificar-me que ahi estaes.»
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.


Com longo olhar escruto a sombra,

Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra unica e dilecta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca saes;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co’a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Sôa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ella:
«Seguramente, há na janella
«Alguma cousa que sussura. Abramos
«Eia, fôra o temor, eia, vejamos

«A explicação do caso mysterioso
«D’essas duas pancadas taes.
«Devolvamos a paz ao coração medroso,
«Obra do vento e nada mais.»

Abro a janella, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortezias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E prompto e recto
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima vôa dos portaes,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Pallas;
repado fica, e nada mais.


Diante da ave feia e escura,
Naquella rigida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me alli por um momento,
E eu disse: «Ó tu que das nocturnas plagas
«Vens, embora a cabeça nua tragas,
«Sem topete, não és ave medrosa,
«Dize as teus nomes senhoriaes;
«Como te chamas tu na grande noite umbrosa?»
 E o corvo disse; «Nunca mais.»

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico attônito, embora a resposta que dera
Difficilmente lh’a entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
N’um busto, acima dos portaes,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: «Nunca mais.»


No emtanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que alli disse
Toda a sua alma resumisse.

Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma

Até que eu murmurei: «Perdi outr’ora

Tantos amigos tão leaes!
«Perderei também este em regressando a aurora.»
 E o corvo disse: «Nunca mais!»

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exacta! é tão cabida!
«Certamente, digo eu, essa é toda a sciencia
«Que elle trouxe da convivência
«De algum mestre infeliz e acabrunhado
«Que o implacavel destino há castigado
«Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
«Que dos seus cantos usuaes
«Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
 «Esse estribilho: «Nunca mais.»

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no velludo
Da poltrona que eu mesmo alli trouxera
Achar procuro a lúgubre chimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquellas syllabas fataes,
Entender o que quiz dizer a ave do medo
Grasnando a phrase: — Nunca mais.

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe fallava mais; mas, se lhe não fallava,
Sentia o olhar que me abrazava.
Conjecturando fui, tranquillo, à gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada cahiam
Onde as tranças angelicaes
De outra cabeça outr’ora alli se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Suppuz então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de seraphins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro thuríbulo invisível;
E eu exclamei então: «Um Deus sensivel

«Manda repouso à dor que te devora
«D’estas saudades immortaes.
«Eia, esquece, eia, olvida essa extincta Lenora.»
E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Ave ou demônio que negrejas!
«Propheta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
«Onde reside o mal eterno,

«Ou simplesmente náufrago escapado

«Venhas do temporal que te há lançado

«N’esta casa onde o Horror, o Horror profundo
«Tem os seus lares triumphaes,
«Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?»
E o corvo disse: «Nunca mais.»


«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Ave ou demônio que negrejas!
«Propheta sempre, escuta, attende, escuta, attende!

«Por esse céu que além se estende,
«Pelo Deus que ambos adoramos, falla,
«Dize a esta alma se é dado inda escutal-a
«No Éden celeste a virgem que ella chora
«Nestes retiros sepulchraes,
«Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!»
E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Ave ou demônio que negrejas!
«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
«Regressa ao temporal, regressa
«À tua noite, deixa-me commigo.
«Vae-te, não fique no meu casto abrigo

«Pluma que lembre essa mentira tua.
«Tira-me ao peito essas fataes
«Garras que abrindo vão a minha dor já crua.»

 E o corvo disse: «Nunca mais.»

E o corvo ahi fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Pallas; ei-lo immutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz cahida
Do lampeão sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fóra
D’aquellas linhas funeraes
Que fluctuam no chão, a minha alma que chora

Não sai mais, nunca, nunca mais!

Edgar Allan Poe