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segunda-feira, 25 de abril de 2022

Pedaço de mim

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Trago tantas saudades em mim, elas são como se fossem literais pedaços que me compõem.

Ismael Machado

domingo, 24 de abril de 2022

A esperança se põe ao meu lado...

Stand by Me,  by Ben E. King

Ao ver um vídeo assim, com artistas de rua, 
todos incríveis, eu penso que há esperanças para a humanidade. 
Then the hope stand by me!

Ismael machado

sábado, 23 de abril de 2022

Súplica, de Marcílio Godoi

Hoje, mal coloquei os pés fora da cama e já me baixou uma vontade urgente, que amanheceu, aqui dentro, gritando feito bicho desesperado me subindo do peito, arranhando a garganta, querendo saltar pelas têmporas.

Acho que é uma espécie de síndrome de abstinência do Brasil verdadeiro: eis que me deu ganas de sair por aí abordando todos às ruas; senhora, o Brasil não é isso; garoto, o seu país é bem outro; por favor amigo, amiga, escutem, vejam, a nação brasileira não é assim!

Súbito, vivi o ensejo desejante irresistível de sacudir os ombros do motorista do aplicativo e suplicar a ele, cara, por favor me escuta, você já ouviu falar do Antonio Candido? Você sabia que você é contemporâneo da Fernanda Montenegro, sabia? tem noção de que o Darcy Ribeiro é seu conterrâneo? Seu conterrâneo!

Mesmo que parecesse louco, baixou-me essa vontade de ir à padoca e puxar conversa com o chapeiro sobre o Gilberto Freyre e seu malungo, o Nelson Freire, que tanto orgulho me dão de ter nascido brasileiro.

Sei lá, amanheci louco para pôr em roda umas crianças na praça e contar-lhes as histórias da Maria Carolina de Jesus e da Cora Coralina. Repartiria com elas o que disse, o que fez Nise da Silveira, Eunice Paiva, Zuzu Angel, Conceição Evaristo. Ah, tanta coisa linda, de chorar.

Chamaria, agora mesmo, para um boteco os amigos desconhecidos das redes sociais só para lembrarmos juntos de uns heróis nossos, tão recentes em nossa história, sem essa de Tiradentes e generais, mas o Herzog, o Rubens Paiva, o Betinho, Conselheiro, Zumbi dos Palmares, o Henfil. A Marielle, meu d'us, a Marielle...

Amanheci assim, querendo sair às ruas como um menino jornaleiro gritando nomes de caras ainda vivos, de quem tanto me jacto e nem posso, agora, dizer a eles; o Jorge Mautner, a Rita Lee, a Marilena Chauí, o Milton Santos, o Caetano, o Zé Celso, o Hermeto Pascoal, o Tom Zé, puxa vida, gente, esses caras são brasileiros. E estão agora, aqui, no nosso tempo, respirando o mesmo ar que nós.

Olha o Chico! Olha a Elis! Olha o Milton! Olha o Cartola! Olha o Gil! Olha a cara do Brasil! Eu iria saltando pela rua, os olhos arregalados dizendo aos transeuntes: Manja Eduardo Viveiros de Castro? Saca Antônio Callado? Portinari? Niemeyer? Clarice Lispector, pelo amor de d'us, não morra sem saber o que havia de política em seu subtexto!

Bateria em todos os ombros e interfones do bairro gritando na chuva: tem cinco minutinhos para ouvir a palavra de Paulo Freire? Sabia que você nasceu no mesmo país que o Mário de Andrade? E que o Tom Jobim é Brasileiro de Almeida? E o Villa; e o Vina?

Imagino-me cutucando desconhecidos no cinema, como na esquina, entregando panfletos revolucionários com poemas do Bandeira, do Cabral, do Quintana. Olha o poema brasileiro aí, gente! Aproveita, madame. Tá de graça!

Sei lá. Talvez que me prendessem, talvez que me internassem. Mas eu iria resistir, gritando aos carcereiros, aos enfermeiros, posso ler um trecho do Graciliano Ramos para o senhor? Sabe a Elza Soares, senhora? Já leu o Rosa? Moço, o Machado de Assis é brasileiro como você! E numa derradeira súplica, seguraria o braço do policial e muito a sério lhe diria, antes de ele conseguir me apagar, tentando fazê-lo acordar: não deixe de ler A Rosa do Povo, amigo!

Marcílio Godoi (Mestre em Crítica Literária pela PUC-SP)

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Suburbano coração, de Chico Buarque


Quem vem lá
Que horas são
Isso não são horas, que horas são
É você, é o ladrão
Isso não são horas, que horas são
Quem vem lá
Blim blem blão
Isso não são horas, que horas são  

A casa está bonita
A dona está demais
A última visita
Quanto tempo faz
Balançam os cabides
Lustres se acenderão
O amor vai pôr os pés
No conjugado coração
Será que o amor se sente em casa
Vai sentar no chão
Será que vai deixar cair
A brasa no tapete coração 

Quando aumentar a fita
As línguas vão falar
Que a dona tem visita
E nunca vai casar
Se enroscam persianas
Louças se partirão
O amor está tocando
O suburbano coração
Será que o amor não tem programa
Ou ama com paixão
Mulher virando no sofá
Sofá virando cama coração
O amor já vai embora
Ou perde a condução
Será que não repara
A desarrumação
Que tanta cerimônia
Se a dona já não tem
Vergonha do seu coração

Chico Buarque 

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Vila rica de ouro preto

Para a Inconfidente Bárbara Eliodora Guilhermina da Silveira

e aos mártires da Liberdade

 

Ouso, atrevo-me e escrevo as palavras proibidas por Rainer Rilke.

Assim, digo dos amores perdidos, roubados, traídos, esquecidos.

Numa licença poética, teço as dores para as quais

os boticários não têm poções, fórmulas.

 

Dores de perdidos amores são de difícil manipulação...

só o tempo... só o tempo... trará a cura para essas chagas.

Isso é castigo que à dor me dá. É sina, é sino que se quebra

e perde a melodia, torna-se em chacota e silêncio...

e o sineiro, entristecido, perde, assim, o seu precioso ofício,

já não o toca. Dele partido, sem qualquer sonido, batida,

eia pois, o coração.

 

A traição, então, é punhal laminado, no peito cravado, ferrado.

Distante, um dia, haverá um olhar, ele brilhará

após as densas nuvens de lágrimas.

 

Lágrimas vertidas desejam expulsar em gotas

o mar de dores no tórax, o qual desemboca no rio da vida

ou nas turvas, pútridas águas da morte.

 

Foi assim: deitaram-se juntos, comeram, riram, festejaram,

viram filmes, até os desentendimentos,

até visitarem a sórdida Babilônia,

sem mais jardins, sem flores.

Por esses nubentes, nem os pequenos sinos repicam mais.

 

Resta ao pároco, ao moribundo dar-lhe uma extrema-unção,

também às flores do mal, sobre as quais outras,

nem sei se bem ou mal, nascerão.

É negra, negra, negra a presença

do sofrimento nessa Senzala, que me aponta os versos,

as faces de Marília, de Dirceu.

 

 ...cansa-me a vista

de te buscar;

porém não vejo

mais que o desejo,

sem esperança

de te encontrar.

 

Numa forca foi o meu sentimento degolado, asfixiado,

agora ai de mim ausente, triste somente,

que as horas me dão solidão, elas me põem o peito em suspiros.

Em bálsamos desejaria o corpo e a alma, inteiros, mergulhados.

 

A traição engendrou a morte da Liberdade, ela,

 em moinhos triturou sonhos.

Sobre eles um Queluz, uma Barca, pairam suspensos

acima dos restantes sentimentos.

Dessas treze cruzes desse mundo vil

gotejam sangues, histórias, preces, memórias...

e um anjo toalheiro vem secar a minha fronte transpirante,

amparar o peito arfante.

 

Sinto-me aleijado com esse flagelado coração,

nestes dias de perdição.

Esculpirei, destarte, em detalhes, um novo órgão,

que possa tocar o prazer, tocar o azul celeste

de minhas acalentadas ilusões, o que de joelhos

peço em meu oratório.

  

Quem quer males evitar,

Evite-lhe a ocasião,

Que os males por si virão,

Sem ninguém os procurar,

E antes que ronque o trovão,

Manda a prudência ferrar.

 

10º

Pois, embora diluso, nem sei de ir-me, do viver...

Sigo enlouquecido de esperança!

De girassóis e de ouro cravejam-se as estações celestiais,

além de vida e de ressurreição.

Frente ao espelho, com prudência, vestido de primavera, vai

um infante subindo e descendo, da vida mal sabendo as ladeiras.

Vida de amores não é brincadeira...

 


Neste tormentoso mar
D'ondas de contradições,

Ninguém soletre feições,

Que sempre há de enganar;

Das caras a corações

Há muitas léguas que andar.

 

11º

O amor romântico, um ouro preto, pedra bruta

por lapidar. Amor mesmo é raro topázio imperial

e coroa as frontes dos veros amantes

numa vila rica das cardeais virtudes.

 

12º

Os sinos repicam, tocam, dobram.

Sob vinte e sete sagrados sons encontro o Graal.

Neste instante, no peito outrora arfante,

pende uma cruz seráfica, com os seus três pares de asas

e elas me levarão aos versos sublimados.

 

13º

Vejo Serafins, ardentes em sacros-fogos, eles olham por mim.

De tão perto, Lúcio e Bona avistam-me

com os seus bem-casados olhos pios.

 
 Ouro Preto (MG), 19.05.2015.

 (*) As estrofes, em itálico, são de autoria da homenageada. 

Provavelmente, a primeira poetisa brasileira, cronologicamente,

da qual se têm registros.

 

Codinome: Machado e Silva 

(By: Ismael Machado)

Do livro Quatro Estações, 2018, Alfa Editora.


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quarta-feira, 20 de abril de 2022

Dance no fluxo do Universo

Inspirado no Salmo 149:3

"Louvem seu Nome com danças, cantem seus louvores..."

     Dançar pode ser tão sagrado quanto orar, disse alguém com profunda sabedoria.

Tudo reside na intenção que nos move, no propósito que habita nosso coração.

Quando dançamos não movimentamos apenas o corpo, exercitando os músculos, expressamos também e, principalmente, a sensibilidade que nos vai na alma.

Dançando tornamos a vida mais leve e colorida, enchendo de graça e beleza a nossa jornada neste mundo.

Por alguns momentos esquecemos as dores, reencontrando a magia esquecida ou perdida, de viver.

A natureza é um permanente espetáculo de dança.

Dançam as borboletas em torno das flores.

A Terra e os demais planetas dançam em torno do Sol.

As árvores dançam com o vento.

Os passarinhos dançam no ar e os peixes bailam sem cessar.

Dançam os rios cruzando os vales e dança a chuva molhando a terra.

Dançam as ideias na inspiração do escritor.

Dançam as imagens na mente do pintor.

Dançam as formas na criação do escultor.

Dançam as notas na voz do cantor.

Dançam as células em nosso corpo.

Dançam os órgãos no compasso gerado pelas batidas do coração.

Dançam as sinapses sob a batuta desse formidável maestro que é o cérebro.

Não dance apenas para os outros, dance com os outros e consigo mesmo, harmonizando corpo e alma em cada movimento que fizer.

Dançando, as tristezas, dores, tensões e ansiedades vão ficando para trás e, no compasso de cada ritmo, vamos ao encontro de alegrias que sempre se renovam.

Dance quando estiver feliz e realizado.

Dance pelo prazer de dançar, em todas as estações e a cada estação que seu corpo passar.

E o que o seu dançar seja uma oferenda de amor ao Criador  que, incessantemente, promove o espetáculo da vida: desafiador, misterioso, delicado, impactante e sagrado.

Não apenas assista, viva e sinta esse espetáculo que nunca sai de cartaz. 

Dance hoje e dance sempre.   

Cezar Braga Said