Como
eu iria conjugar a perfeição num lugar onde até o nosso passado simples foi
sempre imperfeito? Onde algumas infâncias tiveram erros de concordância, a
geladeira não tinha substantivo concreto e a barriga roncava sem nenhum
adjetivo pra enfeitar a fome.
Na
análise sintática dessa cidade, quem levanta o prédio é tratado como sujeito
inexistente. Quem limpa o chão do Shopping às 5 da manhã vira sujeito oculto na
frente de toda essa gente. É que o sistema te empurra para a voz passiva. Te
amassa na engrenagem e te reduz a um objeto direto.
Você
apanha da rotina, engole o seco e ainda exigem que o teu vocabulário seja
sempre correto. A gente nasce debaixo do modo imperativo: trabalhe, obedeça,
cale a boca. Abaixe a cabeça e não crie caso. E se você atrasa um boleto, os
juros vêm com acento agudo cravado bem no meio do seu cansaço.
A
nossa vida inteira fica presa na armadilha de um gerúndio que nunca acaba. É o
povo trabalhando, correndo, devendo, sangrando, tentando, lutando e
so-bre-vi-ven-do.
Enquanto
todos os nossos sonhos são despejados lá para um futuro do pretérito, aquilo
que eu seria, o que eu faria, onde eu chegaria se o meu tempo não tivesse sido
roubado? Se o nosso presente do indicativo não fosse esse verbo defectivo que
trava na garganta e nunca pode ser conjugado.
E
para não preocupar quem a gente ama, a gente aprende na marra a usar a
pontuação para se esconder, você abre um parêntese no banheiro do serviço,
chora calado por três minutos, lava o rosto, fecha o parêntese e volta a
sorrir. Ninguém vê o que está ali dentro.
O
nosso fim de semana não é descanso, é só uma vírgula curta para puxar o ar
(respira), no meio de uma oração subordinada a um salário mínimo. Uma frase
longa, arrastada, que parece escrita só para deixar a gente sem fôlego. Mas o
que os donos da caneta esqueceram é que as ruas também sabem reescrever a
própria regra.
A
gente cansou de ser complemento nominal da riqueza dos outros. Eu rasguei a
folha da voz passiva para assumir a autoria do meu próprio texto. No grito, na
marra e no peito aberto. Porque a verdade é uma só: eles tentaram colocar
tantos pontos finais na minha vida que acabaram virando reticências... É isso!
Nantes Pisquila Júnior

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