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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

A liberdade de Gimel, algo genial - Parte II

Ao sábio Gibran Khalil Gibran

Parte II


Saí pela cidade, perambulante, fui ao Banco ver gente, sacar algum dinheiro e me veio o banqueiro, um homem vistoso, bem apessoado, com palavras difíceis, dizendo-me a mais pura verdade, e ele foi logo sendo honesto e me devolvendo os juros indigestos pela metade, e eu de surpreso, levemente rude, naquilo que os olhos constatavam, crer nele, eu confesso que não pude. Eu, do que o homem me deu, quis lhe retornar um bocado, porque já estava acostumado a ser tantas vezes usurpado. Porém, ele foi mesmo sincero e eu apenas lhe disse, Amém!

 

Então, veio a mim Madalena, casada, pelo marido bem-amada, com três filhos criados, graúdos, há quantas bodas esposada, mas o marido por ela traído, pobre homem, mal sabia de quanto ocorrido. Entretanto, ela se disse arrependida, assim, de mim, reduzi-me a dizer-lhe que mudasse de vida, ao que ela m’o prometeu doravante deitar-se unicamente com o seu esposo sobre o leito da lealdade, jurou comer na panela cotidiana da fidelidade, arroz e feijão, e viver na mais pura simplicidade. Porque não sou tolo, desconfiado, de todo não cri, argui por dentro, será que eu poderia dar a ela um crédito, em realidade, sem forçar qualquer amizade? Lembrei-me naquela hora da primeira petição feita ao gênio com tamanha sinceridade, acaso não era aquela minha mais desejada intenção? Vi uma névoa sobre a cabeça da mulher e não entendi… parecia mais reluzente que o pó na ampulheta presente.

 

Também, encontrei-me com um filho que havia mentido, roubado e traído o próprio pai, devido à sua luxúria, deixando aquele que era mais do que o seu amigo em uma completa penúria. O seu nome era Dimas, um cidadão romano, nascido na mesma cidade que hoje circunda o Vaticano, e ele se dizia, igual à tal mulher, arrependido, porém, gostaria de, para aliviar o seu tormento, com atitudes, demonstrar o seu vero arrependimento. Estava em rubras cores deveras envergonhado, e não queria sequer mencionar os atos de seu tenebroso passado.

 

Em seguida, vi um homem negro, cultura afrodescendente, notadamente gay, origem nordestina, na vida contava tantos papéis, estava estirado sobre cordéis, pelas vestes, presumidamente pobre, ali no meio da rua, por quantas pechas caído, ou, talvez, até por algum atentado acometido, contudo, ele justamente ser socorrido por um homem branco, loiro, olhos azuis-celestes, bem-vestido, sabidamente rico, só pelo carro estacionado ao lado, provavelmente de origem europeia, bem-nascido, bem-criado, disseram-me tratar-se de um fulano de tal, super votado para o edílico municipal. Era uma visão quase celestial, surreal, eu não podia crer naquilo não, estava surpreendido, estarrecido. Porém, ainda lembrei da lâmpada mágica e do derradeiro pedido.

 

Haviam sido três petições, englobando quatro graves problemas para uma cabal solução, nessa ordem: a traição, a mentira, o roubo e a discriminação. Três em quatro o feito, na prova da soma dá sete, o que estava perfeito.

 

Depois, segundos, a consciência eu recobrei, acordei algo assustado, escutei ao longe, três sinos franciscanos repicavam na torre ao alto na catedral, virei-me na cama, sem pensar levantei, olhei ao redor, o calendário no criado-mudo marcava o dia quatro de julho, avistei o despertador, eram sete horas e quatro minutos, ainda lembrei-me do sonho, do gênio, da lâmpada dourada e dos pedidos feitos, apressadamente anotei algumas palavras no meu caderno de apontamentos, dirigi-me ao banheiro e rapidamente eu me lavei, aprontei-me, e o roteiro diário do trabalho tomei. Quando lá cheguei bati o registro eletrônico de entrada, ergui os olhos para o relógio de paredes e vi que eram oito horas em ponto, hora cravada, hora do eito, igual àquela marcada no relógio preso no meu pulso direito. Também, na parede, aquele muro branco, ao lado do relógio, estava uma cruz e acima de ambos havia um conselho que eu sempre lia, o qual em poucas palavras dizia: 

“­­—Jamais se esqueça daquelas coisas que lhe fazem sorrir.”…


Ismael Machado
Poeta e escritor

5 comentários:

  1. Um dos melhores textos que já vi.. Parabéns Ismael...

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    1. Muito obrigado, querida Nira. Você é mesmo muito especial para mim. Abraços, Ismael.

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  2. Meu amigo Ismael, li tudo e vi um texto criativo, simbólico e muito provocador, que mistura sonho, fantasia, filosofia e crítica social para refletir sobre o comportamento humano.
    Gostei especialmente da construção dos três pedidos feitos a Gimel e de como a narrativa vai mostrando suas possíveis consequências. O trecho que mais me chamou atenção foi o do vendedor de cordel, um homem negro, nordestino, gay e aparentemente pobre, encontrado caído sobre os cordéis e socorrido por um homem branco, rico e de aparência completamente diferente. A cena é muito simbólica e traduz, de maneira bonita, o desejo de uma sociedade sem preconceitos.
    E o cordel ali não parece estar por acaso: ele representa a cultura popular, a memória, a voz e as histórias de tantas pessoas que também precisam ter seu lugar e sua dignidade reconhecidos.
    Um texto que, além de criativo, deixa boas perguntas para o leitor e provoca uma reflexão sobre o ser humano.

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    1. Sou imensamente grato pelas suas palavras, querida poeta Aurineide Alencar. Fiquei super feliz que você gostou, porque você é uma cordelista premiada. Nossa, que alegria!

      Recebe o meu abraço apertado, com votos de sucesso na sua caminhada. Ismael.

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    2. Vou dormir faceiro, feito o gênio Gimel, rsrsrs,

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