Pedro Múcio interpretando seu texto.
Amor, perdoe-me pelos erros que cometi em nosso matrimônio.
Amor, desculpa por ter vindo aqui.
Amor, desculpa por ter que te deixar.
Amor, eu tenho medo… medo desse tempo tolstóiniano de guerras…. tenho medo destes meus inimigos, que por se verem em certas expectativas podem parecer diabos do inferno de Dante, mas que em outras perspectivas revelam vidas iguais as minhas — que provavelmente — estão por escrever cartas semelhantes a esta que estou aqui a escrever para vossa senhoria no mais preciso presente…
eu tenho medo, minha flor embalsamada… medo de que crianças tenham memórias póstumas de seus pais... memórias que remontam a corpos desgraçados e violadas por gases e fogos que queimam a derme desde a sua concepção pura.
Medo, medo, medo, medo.
Medo de monstros trajados de ternos, que ao longo de seus escritórios afastados da desgraça, brinquem com vidas inocentes e sublimes com seus sonhos fraternais e poéticos.
Tenho medo, meu amor… que esta seja a última vez que possa te chamar de amor… tenho medo de que nosso filho não possa ver seu progenitor prestar assistência a ele.
Tenho medo meu amor… de que eu jamais possa ver este corpo que exala concupiscência e voluptuosidade em seus bálsamos perfumados.
Estes olhos cheios de um fulgor belo como uma aurora boreal e uma tempestade de cima de um arranha-céu de Nova York.
Esta voz... que em seus mínimos tons soam como partituras criadas pelos maiores detentores da musicalidade neste planeta.
Esta boca rubra e bela como o sangue que atrai até Nosferatu — o vampiro — em seus momentos de reclusão.
Esse sorriso, que faria Louis Armstrong repetir seu fatídico e inexprimível refrão infinitas vezes. Esta alma que me concede forças nestes tempos de guerras destruidoras de lares e criadoras de cidades devastadas por cinzas de corpos e poesias…
Eu tenho medo, amor.
Pedro Múcio

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